Adilson Monteiro, no artigo “Segurança “burra” com uso do bom senso”, faz um alerta direto sobre um erro comum e perigoso na segurança de máquinas.
Tratar “bom senso” como exigência operacional parece simples, mas transfere ao trabalhador uma responsabilidade que deveria começar no projeto da máquina.
Na prática, isso ignora fatores como cognição, ergonomia da tarefa e nível de formação.
O problema é claro: quando o sistema falha no design, a culpa recai sobre quem está mais exposto.
Por isso, falar de segurança centrada no ser humano é falar de prevenção real, redução de riscos e decisões mais seguras no trabalho.
Segurança “burra” com uso do bom senso
Por: Adilson Monteiro
Tive contado com o manual de operação de uma máquina importada para análise e me deparei com esta introdução :
“2.1 Precautions
• Safe use of this machine is the responsibility of the operator. Use good judgment and common sense when working with and around this machine.”
(2.1 Precauções
• A utilização segura desta máquina é da responsabilidade do operador. Utilize bom senso e discernimento ao trabalhar com e perto desta máquina.).
Isso me chamou muito a atenção e ao mesmo tempo uma certa indignação de como um fabricante de máquinas tenta se isentar de qualquer responsabilidade em um acidente na sua máquina, que fora projetada por ele, usando argumento de “bom senso” como requisito ao trabalhador (a);
Literalmente o “bom senso” é a faculdade de “bem julgar”, frequentemente associada à sabedoria prática e à moderação (equilíbrio). Porém ele não é um conceito universal ou fixo, mas sim subjetivo e moldado por fatores culturais, sociais e individuais, ou seja , não é um conceito técnico racional e portanto nunca deveria ser parte de um manual no uso de uma máquina.
Ao usar tal argumento o fabricante atesta sua ignorância ou menosprezo ao humano que realiza seu trabalho em algo que projetou , pois existem fatores humanos a serem levados ao design , tais como :
– Cognição da tarefa : processos mentais (atenção, memória, raciocínio) necessários para executar atividades, envolvendo recepção, seleção e transformação de cuja informações, cuja a variabilidade dada a repetibilidade , condição cultural e ambiente organizacional, como exemplos;
– Ergonomia da tarefa: analisa o trabalho prescrito (metas, procedimentos, ferramentas) e o compara ao trabalho real (atividades efetivas) para reduzir sobrecargas no trabalho e consequente decisões com base contextual variável;
– Qualidade da educação: lógico que o bom senso leva em conta a experiência no processo, porém para uma máquina nova em um processo novo, esta experiência não existe e é somente baseada em um trabalho imaginado.
Logo, colocar a necessidade se ter “bom senso” como premissa na operação de uma máquina é um reducionismo humano perverso, onde desde logo coloca a culpabilização ao trabalhador(a) em caso de um acidente, pois já era esperado que ele tome todas as decisões corretas independentemente do contexto, humano e organizacional , que está particularmente exposto. As máquinas devem ter seu design focado no humano , em suas limitações e consequentemente dotadas de recursos na prevenção caso uma decisão não adequada ( seja por desconhecimento ou falta de atenção) seja devidamente neutralizada por sistemas de falha segura, o que , ironicamente , tem na maioria das vezes seu custo pequeno perto do investimento total da máquina.

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