Dr. Fernando Mariya discutiu anonimato, matriz de risco, severidade e os limites dos questionários em equipes reduzidas.
A entrada dos fatores de riscos psicossociais na NR-01 trouxe uma mudança importante para a gestão de SST: transformar um tema subjetivo em um processo estruturado de gestão. Na prática, contudo, poucas situações têm gerado tantas dúvidas quanto a aplicação dessas avaliações em micro e pequenas empresas.
O problema começa quando metodologias desenhadas para grandes organizações passam a ser aplicadas em equipes muito reduzidas, levantando questionamentos sobre anonimato, robustez metodológica e coerência da própria matriz de risco. Para discutir esse cenário, a RSData promoveu uma live técnica com o médico do trabalho Dr. Fernando Akio Mariya, abordando Grupo Focal, triangulação metodológica, severidade, fiscalização e os limites das ferramentas quantitativas quando utilizadas fora do contexto adequado
O foco deixa de ser o indivíduo e passa a ser o trabalho
Um dos pontos mais enfatizados pelo Dr. Fernando Mariya foi a necessidade de separar avaliação psicossocial de investigação clínica individual. Segundo ele, a lógica da NR-01 não é identificar “quem está doente”, mas compreender como a organização do trabalho afeta coletivamente o ambiente ocupacional.
“O grupo focal não investiga pessoas. Ele investiga o trabalho.”
Essa mudança de perspectiva ajuda a explicar por que pequenas empresas passaram a gerar tantas dúvidas metodológicas. Em equipes muito reduzidas, qualquer resposta negativa em questionários quantitativos pode gerar insegurança quanto à confidencialidade das informações prestadas.
Foi nesse contexto que o Grupo Focal apareceu na live como uma alternativa relevante para aprofundar a compreensão do trabalho real e das dinâmicas organizacionais. Segundo o Dr. Fernando Mariya, a metodologia funciona como uma escuta estruturada coletiva, conduzida por um moderador, buscando compreender fatores relacionados à organização do trabalho, dinâmica operacional, suporte da liderança, reconhecimento, autonomia e relações interpessoais presentes no ambiente ocupacional.

Questionário e Grupo Focal não competem entre si
Outro ponto discutido durante a live envolveu os casos em que o resultado do Grupo Focal não condiz com os dados obtidos em questionários psicossociais.
Segundo o Dr. Fernando Mariya, essa divergência não significa necessariamente que uma metodologia esteja errada. Enquanto questionários oferecem uma leitura mais padronizada da percepção coletiva, metodologias qualitativas conseguem aprofundar aspectos relacionados ao contexto operacional, cultura organizacional, dinâmica da liderança e particularidades do trabalho real.
Na avaliação apresentada durante a live, o mais adequado não é escolher automaticamente uma ferramenta em detrimento da outra, mas analisar diferentes fontes de evidência de forma integrada dentro do processo de gestão.
Essa talvez tenha sido uma das discussões mais maduras da apresentação, justamente por afastar a ideia de “ferramenta mágica” e reforçar que a coerência metodológica continua sendo o principal elemento da avaliação psicossocial.
O debate sobre severidade: absenteísmo define a matriz?
Outro tema que repercutiu fortemente após a live envolveu a gradação da severidade na matriz de risco. Muitas consultorias utilizam taxas de absenteísmo, rotatividade ou histórico de afastamentos para auxiliar na definição dos níveis de risco dentro da matriz.
Antes da live, durante uma troca técnica via WhatsApp, o Auditor Fiscal do Trabalho Mauro Müller trouxe um alerta importante relacionado à interpretação da NR-01. Segundo ele, o item 1.5.4.4.4 estabelece que a severidade deve considerar prioritariamente a magnitude das possíveis consequências à saúde do trabalhador.
Na prática, isso significa que indicadores organizacionais podem auxiliar na gestão, acompanhamento e priorização das ações, mas não devem ser utilizados isoladamente como critério definidor da severidade.
| Critério | Visão Corporativa / RH | Interpretação Regulamentar da NR-01 |
|---|---|---|
| Foco analisado | Indicadores históricos (absenteísmo, afastamentos, rotatividade) | Magnitude das possíveis consequências à saúde |
| Caráter da análise | Retrospectivo | Preventivo |
| Objetivo principal | Gestão organizacional | Prevenção do agravo à saúde |
Ao longo da live apresentada pelo Dr. Fernando Mariya, também ficou evidente que um dos maiores desafios atuais do mercado não é apenas aplicar ferramentas, mas transformar os dados coletados em critérios coerentes de priorização dentro da matriz de risco.
Nesse contexto, avaliações quantitativas, Grupo Focal, observação do trabalho real e indicadores organizacionais passam a funcionar como fontes complementares para construção da probabilidade do risco, enquanto a severidade permanece relacionada à magnitude das possíveis consequências à saúde do trabalhador.

Exemplo de matriz de risco utilizada para priorização dos fatores de riscos psicossociais dentro do processo de gestão previsto na NR-01, utilizada pelo Dr. Fernando Mariya
A discussão sobre severidade também ganhou destaque porque a própria gradação dos possíveis agravos precisa manter coerência com a magnitude potencial das consequências à saúde do trabalhador.

Exemplo de gradação qualitativa da severidade relacionada aos fatores de risco ergonômicos, utilizada como referência técnica nos debates sobre matriz de risco e NR-01 utilizada pelo AFT Mauro Muller em sua dissertação de Mestrado.
Fiscalização busca coerência, não apenas documentos
Outro tema recorrente nas perguntas enviadas à live envolveu preocupação com fiscalizações em pequenas empresas. Relatos mencionavam ambientes com jornadas exaustivas, calor extremo, ausência de pausas e alta sobrecarga operacional, enquanto os PGRs classificavam praticamente todos os riscos como baixos.
Segundo a discussão apresentada durante a live, a tendência é que a fiscalização confronte cada vez mais a realidade observada no ambiente de trabalho com os critérios metodológicos utilizados na avaliação.
Em outras palavras, o desafio não parece estar apenas em possuir um documento formalmente preenchido, mas em conseguir sustentar tecnicamente as classificações realizadas. Quando houver incompatibilidade evidente entre realidade operacional, evidências coletadas e classificação final da matriz, o modelo adotado poderá ser tecnicamente questionado durante a fiscalização.
Essa discussão reforça novamente um dos principais pontos apresentados pelo Dr. Fernando Mariya: a NR-01 não parece caminhar para um modelo baseado apenas em formulários, mas para uma lógica de gestão consistente e aderente ao trabalho real.
O maior desafio talvez ainda seja a maturidade técnica do mercado
Ao longo da live, ficou evidente que uma das maiores preocupações atuais envolve justamente o preparo técnico para conduzir esse tipo de avaliação. Em diversos momentos, o Dr. Fernando Mariya chamou atenção para o risco de transformar a gestão dos fatores psicossociais em mera aplicação automática de ferramentas, sem interpretação crítica dos dados e sem conexão com o contexto organizacional analisado.
Segundo o especialista, a escolha da metodologia precisa considerar:
- porte da empresa;
- escolaridade da população avaliada;
- maturidade da gestão;
- complexidade das atividades;
- e características reais do ambiente ocupacional.
Talvez esse seja o principal movimento que começa a surgir dentro da SST: deixar de enxergar riscos psicossociais apenas como formulário e passar a discutir efetivamente organização do trabalho, coerência metodológica e gestão consistente dos fatores organizacionais.
Erros mais comuns nas avaliações psicossociais
Ao longo da live e das perguntas enviadas pelos participantes, alguns problemas apareceram de forma recorrente nas avaliações realizadas atualmente pelo mercado.
| Erro comum | Impacto na avaliação |
|---|---|
| Aplicar questionários em equipes muito pequenas sem avaliar anonimato | Fragilidade metodológica e insegurança dos trabalhadores |
| Utilizar ferramentas sem interpretação crítica dos dados | Avaliações superficiais e desconectadas do trabalho real |
| Classificar automaticamente todos os riscos como baixos | Inconsistência técnica entre documento e realidade |
| Não realizar análise integrada das evidências | Perda de contextualização da avaliação |
| Confundir saúde mental individual com organização do trabalho | Desvio do foco preventivo da NR-01 |
| Utilizar metodologia sem considerar contexto da empresa | Fragilidade da gestão e da aderência técnica |
FAQ – dúvidas enviadas durante a live
Pequenas empresas, anonimato e Grupo Focal
Como mapear os FRPRT em empresa com menos de 10 trabalhadores, como colocar as informações na fica a matriz de risco.
Segundo o Dr. Fernando Mariya, equipes muito reduzidas podem gerar limitações relacionadas à confidencialidade e à robustez metodológica das avaliações quantitativas. Nesses cenários, metodologias qualitativas, como o Grupo Focal, podem ajudar a aprofundar a compreensão do trabalho real e das dinâmicas organizacionais.
Após a aplicação do questionário de riscos psicossociais, algumas dimensões apresentaram resultados ruins em determinados cargos. Minha dúvida é: posso conduzir o grupo focal para validar essas informações sem expor os trabalhadores ou influenciar as respostas?
Sim. Segundo o especialista, essa é justamente uma das aplicações mais relevantes do Grupo Focal. O questionário ajuda a sinalizar pontos críticos, enquanto o Grupo Focal aprofunda o entendimento sobre o contexto organizacional e os fatores relacionados ao resultado encontrado.
Quando a analise do grupo focal não condizem com os resultados do questionário de riscos psicossociais, qual deve ser considerado na análise final? Como interpretar essa divergência e identificar qual informação representa melhor a realidade da empresa?
Segundo o Dr. Fernando Mariya, divergências entre metodologias não significam necessariamente erro. Questionários e Grupo Focal capturam dimensões diferentes da organização do trabalho. Em muitos cenários, o mais adequado é realizar triangulação metodológica, cruzando diferentes fontes de evidência.
Severidade e matriz de risco
No seu ponto de vista, qual o melhor critério para gradação da severidade nos FRPrT? Podemos nos embasar em dados estatísticos nacionais como parâmetro? (Ex.: Maior 15% de absenteísmo ou afastamento = Severidade média).
Durante a discussão técnica da live e do pós-live, foi destacado que indicadores organizacionais podem auxiliar na gestão e priorização das ações, mas não devem ser utilizados isoladamente para definição da severidade. Segundo a interpretação apresentada durante o debate técnico, a NR-01 estabelece que a severidade deve considerar prioritariamente a magnitude das possíveis consequências à saúde do trabalhador.
Fiscalização e coerência técnica
Gostaria de saber como serão feitas as fiscalizações em empresas pequenas e se elas realmente ocorrerão, porque tenho me deparado com situações caóticas.
Segundo a discussão apresentada durante a live, a tendência é que a fiscalização observe coerência metodológica, aderência ao trabalho real e consistência técnica da gestão apresentada no PGR.
Em outro caso, há riscos físicos graves, como trabalhadores expostos a temperaturas entre 300 e 400 graus durante jornadas superiores a 8 horas, sem rodízio ou pausas e sem qualquer tipo de proteção. Para piorar, no PGR todos os riscos são classificados como baixos ou, no máximo, médios. Diante disso, como esses profissionais serão fiscalizados?
Segundo os especialistas, cenários em que existe incompatibilidade evidente entre realidade operacional e classificação dos riscos podem gerar questionamentos técnicos sobre a metodologia utilizada.
Ferramentas e maturidade do mercado
Profissionais aplicando apenas ferramentas qualitativa (Copsoq, Proat ou HSE-it) para baixa escolaridade ou então não tratando os dados das ferramentas. Diante disso, como esses profissionais serão fiscalizados?
O Dr. Fernando Mariya destacou que um dos maiores riscos atuais é transformar a avaliação psicossocial em mera aplicação automática de ferramentas, sem interpretação crítica dos dados e sem conexão com o trabalho real.
Considerando as literaturas e métodos disponíveis para análise dos fatores de riscos qual a mais indicada e qual grande desafio para os analistas em relação a esta nova obrigatoriedade pensando na falta de preparo dos profissionais de ser neste quesito?
Segundo o especialista, não existe ferramenta única ou metodologia universal. A escolha do método deve considerar porte da empresa, contexto organizacional, escolaridade da população avaliada e robustez necessária da avaliação.
- Acesse agora a Live no canal RSData: Grupo Focal na NR-01: Como avaliar riscos psicossociais em empresas com poucos funcionários
📥 Baixe gratuitamente o material técnico da live
A RSData disponibilizou gratuitamente os slides utilizados pelo Dr. Fernando Mariya e o material complementar com perguntas e respostas técnicas discutidas durante a live.
Baixe um material exclusivo de Perguntas e Respostas
Preencha seus dados para liberar o download do arquivo.
- Preenchimento rápido
- Acesso imediato ao arquivo
- Telefone é opcional


