No artigo “EPIs como Desculpa da Culpabilidade do Trabalhador”, Adilson Monteiro mostra como a frase “ele usava todos os EPIs” vira escudo para a empresa fugir da responsabilidade. Em vez de olhar para planejamento da tarefa, análise de risco e sistemas de proteção coletivos, organizações seguem jogando o peso das tragédias nas costas de quem executa o trabalho. Isso é ainda mais grave em serviços terceirizados, vistos como “mais baratos” e, muitas vezes, menos dignos de cuidado. Discutir esse tema é essencial para virar a chave: EPIs são importantes, mas não substituem gestão, ética e uma cultura real de prevenção centrada no ser humano.
EPIs como Desculpa da Culpabilidade do Trabalhador
Por: Adilson Monteiro
Este mês tivemos a notícia de um trabalhador terceirizado que veio a falecer em uma tarefa corte/poda de uma árvore em uma cidade paulista , por motivo de ser atingido por uma parte da árvore tendo fraturas que ocasionaram a morte.
Além do fato da perda da vida deste trabalhador , o que chama a atenção desta tragédia são as declarações tais como : “o trabalhador usava todos os EPIs.”
Imaginemos se é possível um EPI ser capaz de receber um impacto de um tronco de dezenas de quilos sobre o corpo humano , ou mesmo, se usarmos uma armadura medieval seria o suficiente? Imagine só um capacete?
Assim, esse argumento de que sofreu um acidente mas “usava todos os EPIs “ é um jargão conhecido de defesa da organização para indicar , semioticamente, que a culpa foi do trabalhador . E mais do que isto , tentar se isentar da culpa da falta de planejamento na tarefa , falta de uma análise de riscos adequada , prover sistemas de proteção adequados e funcionais (não só o EPI) e até uma falta do plano de emergência efetivo caso algo saia errado.
Outra coisa que permanece no imaginativo organizacional é o tratamento dado ao trabalho terceirizado que , na maioria das vezes , carrega um conceito de que estas pessoas não merecem todo o cuidado acima descrito, pois é “mais barato “ e não são “nossos” trabalhadores(as) e assim, delega-se a responsabilidade da prevenção a uma empresa , que também, muitas vezes, não tem a cultura organizacional e recursos suficientes à prevenção eficiente.
Sequer podemos incluir o trabalho da poda de árvores nas ruas da cidades como uma eventual tarefa, muito pelo contrário , é rotina anual e portanto passível de planejamento e lições aprendidas e no caso de prefeituras, ainda há a possibilidade de aprender com o Corpo de Bombeiros , especialistas neste tipo de tarefa.
Portanto, voltamos ao início da prevenção: como respeitamos e valorizamos o humano nas tarefas. A ética empresarial deve ser questionada e revista colocando o ser humano como centro das decisões , antes mesmo do lucro ou sucesso material, o design organizacional com cultura voltado para o cuidado ao humano.
Lamento profundamente a morte deste trabalhador e também espero que ela não seja em vão. Que as autoridades coloquem seu esforço para educar e responsabilizar empresas e entes públicos obrigando-os a evoluir a prevenção ao ponto de que outras mortes futuras não ocorram e não seja mais os “EPIs “ considerados como elo da culpabilidade do trabalhador(a).
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