Perda de Eficácia da Atenuação do Protetor Auditivo

Hoje nosso convidado, o Professor Gustavo Rezende falará sobre Uma ferramenta online do Health and Safety Executive – HSE do Reino Unido para estimar a perda da eficácia da atenuação dos protetores auditivos pelo tempo de omissão de uso. Confira ete excelente texto com muita informação de qualidade.

Uma ferramenta online do Health and Safety Executive – HSE do Reino Unido para estimar a perda da eficácia da atenuação dos protetores auditivos pelo tempo de omissão de uso.

A utilização de protetores auditivos é uma das práticas mais comuns, no que tange a implementação de medidas de controle, visando a proteção dos trabalhadores expostos a elevados níveis de pressão sonora, sendo largamente aplicada em diferentes empresas.

Efetivamente, é notório que a gestão de muitos dos Equipamentos de Proteção Individual – EPI é de difícil operacionalização, haja vista que o monitoramento de diversos fatores precisa de uma abordagem muito bem desenvolvida para que haja êxito, bem como o acompanhamento das evidências e rastreabilidade da eficácia da proteção auditiva selecionada pela empresa.

Sem esgotar o assunto, podemos citar como exemplos alguns parâmetros, como:

– Treinamento de uso, armazenamento e higienização do protetor auditivo;

– Registro de entrega e recebimento bem estabelecidos, com periodicidade de troca definida com base em critérios técnicos e de saúde auditiva;

– Procedimentos de uso em geral, com ciência de todos os empregados que fazem uso do protetor auditivo.

– Metodologia de seleção, que não considere apenas o valor monetário do EPI (o que infelizmente é muito comum), mas sim os critérios técnicos adotados, por exemplo, com base na Norma Brasileira – NBR 16077 “Equipamento de proteção individual – Protetores auditivos – Método de cálculo do nível de pressão sonora na orelha protegida”. Usando para isto o método longo, que considera a atenuação dos níveis de ruído em bandas de 1/1 oitava, usando como referência a subtração do nível de pressão sonora em cada uma das bandas pela respectiva atenuação do protetor auditivo para essa mesma frequência, descontado duas vezes o desvio padrão, o que confere uma confiabilidade de 98% no valor da atenuação. Outra solução é a adoção do método simples, por meio da aplicação do Nível de Redução de Ruído subject fit (subjetivo) – NRRsf, onde também é obtido um valor de atenuação, com confiabilidade de 84%, mas sem considerar as diferentes componentes de frequência, ou seja, neste caso considera-se um ambiente com níveis de pressão sonora iguais nas diferentes bandas de frequência, um padrão na acústica conhecido como “Ruído Rosa”, porém este cenário definitivamente não representa o que realmente acontece na maior parte dos ambientes industriais;

– Auditoria de uso, com evidência de registro e rastreabilidade com comprovação da ciência do empregado auditado;

– Ensaios de vedação do protetor auditivo (quando aplicável);

– Implementação do Programa de Conservação Auditiva – PCA.

É nítido como a gestão da proteção auditiva é desafiadora, pois exige um engajamento alto das empresas, através de diferentes áreas que vão além do próprio SESMT, bem como das consultorias de higiene ocupacional.

A omissão do uso do protetor auditivo é um dos problemas mais recorrentes nas empresas, pois é comum que os usuários não o utilizem por um determinado tempo, afetando consideravelmente a atenuação pretendida, levando assim a uma drástica redução do nível de redução do ruído estabelecido como recomendado.

A equação que estabelece o Nível de Pressão Sonora – NPS corrigido pelo tempo de omissão de uso é:

Por sua vez, a equação que estabelece o Nível Equivalente – NE é:

Vamos dar um exemplo prático de aplicação (evidente que simplificado para fins didáticos):

Assumindo que um trabalhador esteja exposto a dois níveis de pressão sonora durante uma jornada de trabalho de 8 horas, a saber: 105 dB(A) durante 3 horas e 92 dB(A) durante 5 horas.

Teremos o seguinte resultado para o nível equivalente:

Logo, o nível equivalente ao qual o trabalhador está exposto, adotando-se valores aproximados, é de 101,0 dB(A).Assumindo um cenário onde este mesmo trabalhador utiliza um protetor auditivo que fornece uma atenuação de 25 dB, todavia, com uma omissão de uso de 1 hora durante a jornada de trabalho, teremos o seguinte nível de pressão sonora corrigido:

Assim, podemos ver como a redução da atenuação do protetor auditivo é substancial, mesmo considerando um curto período de omissão de uso. Caso o protetor auditivo fosse usado adequadamente, e selecionado dessa mesma forma, esperaríamos ter uma atenuação de 25 dB, ou seja, 101 dB(A) – 25 dB = 76,0 dB(A). Contudo, como o EPI deixou de ser usado por apenas 1 hora, o valor do nível de pressão sonora corrigido, que podemos entender como o nível equivalente corrigido, será de 92,0 dB(A), como fora dito trata-se de uma grande diferença.

Para facilitar este entendimento o Health and Safety Executive – HSE do Reino Unido (https://www.hse.gov.uk) desenvolveu uma ferramenta online que simula o decréscimo da atenuação do protetor auditivo correlacionado com o tempo de omissão de uso. Usando uma atenuação de referência de 25 dB é possível, através da mudança do tempo de omissão de uso, estimar qual será a real proteção fornecida pelo protetor auditivo considerando que o equipamento deveria ser usado por 60 minutos ininterruptos.

Através do gráfico de barras gerado é possível comparar a proteção nominal de 25 dB com o valor real baseado no tempo de omissão de uso inserido.

Vejamos um exemplo, considerando três cenários:

Gráfico A: tempo de omissão de uso de 10 minutos.

A proteção real será de 8 dB ao invés de 25 dB com um tempo de omissão de uso de apenas 10 minutos (17% do tempo, considerando um período total de uso de 60 minutos).

Gráfico B: tempo de omissão de uso de 30 minutos.

A proteção real será de 3 dB ao invés de 25 dB com um tempo de omissão de 30 minutos (50% do tempo, considerando um período total de uso de 60 minutos).

Gráfico C: sem nenhum tempo de omissão de uso durante a jornada laboral.

Considerando que não houve omissão de uso, bem como a correta seleção do tipo e tamanho do protetor auditivo, a proteção obtida é a mesma da esperada, ou seja, de 25 dB.

Portanto, podemos verificar como a conscientização, o treinamento e as auditorias de utilização do protetor auditivo são ações extremamente importantes para garantir a eficácia dessa medida de controle. É notório que muitas empresas ainda precisam amadurecer a gestão de higiene ocupacional para chegarem a um nível de desempenho satisfatório. Concomitantemente, não se trata de algo trivial, mas sim de um conjunto de medidas que precisam ser conduzidas e administradas de forma apropriada pelos profissionais de segurança e saúde ocupacional.

Para acessar a ferramenta desenvolvida pelo HSE acesse:

https://www.hse.gov.uk/noise/hearingprotection/index.htm

Gustavo Rezende de Souza

Higienista Ocupacional Certificado – HOC 0117

Membro da ABHO, ACGIH, AIHA e BOHS

Professor de Higiene Ocupacional na USP, Senac São Paulo e na Revista Proteção.

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