Este mês tivemos a notícia de um trabalhador terceirizado que veio a falecer em uma tarefa corte/poda de uma árvore em uma cidade paulista , por motivo de ser atingido por uma parte da árvore tendo fraturas que ocasionaram a morte.
Além do fato da perda da vida deste trabalhador , o que cha a atenção desta tragédia são as declarações tais como : “o trabalhador usava todos os EPIs.”
Imaginemos se é possível um EPI ser capaz de receber um impacto de um tronco de dezenas de quilos sobre o corpo humano , ou mesmo, se usarmos uma armadura medieval seria o suficiente? Imagine só um capacete?
Assim, esse argumento de que sofreu um acidente mas “usava todos os EPIs “ é um jargão conhecido de defesa da organização para indicar , semioticamente, que a culpa foi do trabalhador . E mais do que isto , tentar se isentar da culpa da falta de planejamento na tarefa , falta de uma análise de riscos adequada , prover sistemas de proteção adequados e funcionais (não só o EPI) e até uma falta do plano de emergência efetivo caso algo saia errado. Essa crítica à insuficiência do EPI como protagonista da prevenção é detalhada no artigo O EPI para as Organizações e suas Vulnerabilidades.
Outra coisa que permanece no imaginativo organizacional é o tratamento dado ao trabalho terceirizado que , na maioria das vezes , carrega um conceito de que estas pessoas não merecem todo o cuidado acima descrito, pois é “mais barato “ e não são “nossos” trabalhadores(as) e assim, delega-se a responsabilidade da prevenção a uma empresa , que também, muitas vezes, não tem a cultura organizacional e recursos suficientes à prevenção eficiente. A complexidade da gestão de riscos de terceiros e a necessidade de responsabilidade do contratante estão sendo discutidas em A terceira no PGR do contratante: mudança polêmica.
Sequer podemos incluir o trabalho da poda de árvores nas ruas da cidades como uma eventual tarefa, muito pelo contrário , é rotina anual e portanto passível de planejamento e lições aprendidas e no caso de prefeituras, ainda há a possibilidade de aprender com o Corpo de Bombeiros , especialistas neste tipo de tarefa.
Portanto, voltamos ao início da prevenção: como respeitamos e valorizamos o humano nas tarefas. A ética empresarial deve ser questionada e revista colocando o ser humano como centro das decisões , antes mesmo do lucro ou sucesso material, o design organizacional com cultura voltado para o cuidado ao humano. Sobre a necessidade de ir além da burocracia e colocar a segurança como valor ético fundamental, veja a reflexão de Adilson Monteiro em Segurança como Ética Empresarial: o valor humano por trás da prevenção
Lamento profundamente a morte deste trabalhador e também espero que ela não seja em vão. Que as autoridades coloquem seu esforço para educar e responsabilizar empresas e entes públicos obrigando-os a evoluir a prevenção ao ponto de que outras mortes futuras não ocorram e não seja mais os “EPIs “ considerados como elo da culpabilidade do trabalhador(a).
A mentalidade que enxerga SST como “gasto desnecessário” é uma barreira que impede essa evolução, conforme analisado em A falta de comprometimento do empregador com a Saúde e Segurança do Trabalho: Uma barreira à prevenção efetiva.

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