Riscos Psicossociais e Saúde Mental frente ao Impacto das Enchentes do RS

Riscos Psicossociais e Saúde Mental frente ao Impacto das Enchentes do RS

Riscos Psicossociais e Saúde Mental frente ao Impacto das Enchentes do RS

Desde o dia 3 de maio foi imposto aos gaúchos um cenário de devastação e desespero caracterizado pela destruição de casas, ruas, cidades inteiras, além de vidas perdidas que ainda estão sendo contadas. Tudo aquilo que era conhecido como parte de um ambiente seguro que fornecia subsistência e qualidade de vida  deixa de existir em poucas horas. E este seria apenas o começo da epopeia que se iniciava.

Todas as forças se mobilizaram, desde as instituições do governo estadual, federal, municipal além da comunidade e instituições privadas buscavam meios de socorrer e acolher as pessoas para um ambiente minimamente adequado as algumas necessidades básicas. Até o momento foram contados 172 vidas perdidas, 50 desaparecidos, 431 municípios atingidos, mais de 2 milhões de pessoas afetadas, sendo que cerca de 580 mil foram desabrigados ou desalojados caracterizando o maior catástrofe já vivida no estado do RS.

Os danos à saúde mental se dão em decorrência de sua estrutura e condições básicas de vida. Tudo o que era conhecido como seguro e estável é destruído dando lugar a lama e a água deixando as pessoas sem referência. Considere-se ainda o fato de tudo ser sem precedentes o que favorece o negacionismo e a formação de uma resposta adaptativa.

Por este motivo, pode-se ver pessoas não querendo deixar suas casas acreditando que a água não irá avançar mais. Diante deste cenário, os fatores psicossociais observados se referem:

  • Distanciamento de recursos básicos de sobrevivência.
  • Interrupção de serviços essenciais conhecidos.
  • Incerteza quanto aos seu futuro profissional (empresas inoperantes).
  • Descaracterização do cenário como era conhecido.
  • Pressão por soluções por parte da família e do trabalho (em alguns casos).
  • Ausência de uma rotina de vida.
  • Indefinição sobre seu sustento básico.
  • Prejuízo material e o custo da reconstrução.
  • Assédio, violência e discriminação nos abrigos.
  • Separação e perda de entes queridos.

Vale lembrar que, nos casos de diagnóstico prévio de problemas mentais, teremos os sintomas agravados além do acesso ao tratamento se tornar ainda mais precário.

Mas o alvo da atenção dos interessados em saúde mental não devem ser apenas as vítimas, mas ainda os socorristas e os voluntários que, poucos dias após o inicio do evento, já traziam sinais de esgotamento e da conhecida síndrome de Burnout apontando sintomas não apenas físicos,mas também emocionais percebendo suas limitações empoder suprir todas as demandas encontradas e relatando situações em que se viam impotentes para salvar todas as vidas encontradas nas ações de socorro. Alguns eram capazes de reconhecer sua incapacidade para lidar com o sofrimento encontrado idetificando seu limite.

O mesmo se dá ainda até este momento como os voluntários que existiam em número excedente no inicio do evento, mas que agora já está escasso deixando alguns abrigos sem o apoio necessário.

Todos estes públicos: vítimas, socorristas e voluntários se encontram em situação de vulnerabilidade e seus recursos psicologicos são limitados levando cada individuo a perceber seus limites na medida em que o desgaste avança.

As consequências para estes fatores psicossociais são os já conhecidos: TEPT (transtorno de estresse pôs traumático), transtorno de ansiedade, depressão, esgotamento e um aumento do uso de substâncias químicas e bebidas alcoólicas, o que gera um importante agravamento da condição de enfrentamento.

O atendimento psicossocial recebido nas primeiras 72 horas pode prevenir em grande parte, os casos de TEPT, mas requer profissionais de saúde mental capacitados para este tipo de socorro imediato – o que não é facilmente encontrado, visto que não se trata de uma especialização muito comum.

Contudo, os tabus frente a busca por ajuda psicológica ainda barra a aceitação das pessoas a serviços desta natureza. Já avançamos neste aspecto, mas ainda é preciso avançar mais para abrir espaço para este tipo de iniciativa.

Neste momento, uma nova fase tem inicio quando os abrigados retornam as suas casas com a expectativa de retomada de sua vida cotidiana – alguns assombrados pela possibilidade da enchente acontecer novamente, outros, por perceberem que nada será recuperado, outros ainda, não querem voltar para o mesmo lugar por não se sentirem seguros. Depois de algumas semanas ou meses, saberemos o que ficou registrado sob a forma de fobia ou trauma, mas que exigirá ajuda e tratamento para a reconstrução de um estilo de vida mais seguro e saudável.

O fato é que a vida como era antes conhecida por estas pessoas não existiraá mais. Do ponto de vista de saúde mental a abertura a novas experiencias deverá ser assimilada de forma positiva e construtiva para um redesenho aconteça trazendo a luz novas possibilidades e meios de vida  – para alguns longe de seu bairro, de sua cida, ou de seus vizinhos. Alguns lidando com o luto, outros com a necessidade de um recomeço apoiado na experiencia e no aprendizado adquirido.

Os fatores de risco psicossocial se formam no horizonte sem aviso prévio. Se instalam na vida de cada um de nós do dia para a noite, não deixando escolha, nem tempo para pensar, mas exigindo enfrentamento, adaptabilidade e resiliência. O que torna um fator psicossocial se tornar risco para a saúde mental, será nosso preparo psicológico, e este depende de autoconhecimento e inteligência emocional.

[07/06/2024]

(Entenda mais sobre o assunto: “As Enchentes de 2024 – Rio Grande do Sul em Colapso”)

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