Ergonomia e Riscos Psicossociais: Irmãos Gêmeos, Mas Não Univitelinos

Recentemente li um artigo de Thiago Morəno no LinkedIn, Riscos Psicossociais são ergonômicos?, que discute a relação entre riscos psicossociais e ergonomia, argumentando que, embora interligados, não devem ser tratados como uma unidade indivisível. A analogia usada por Thiago “Irmãos Gêmeos? Sim! Mas não univitelinos” sintetiza bem o argumento. Achei a abordagem pertinente e concordo com boa parte das reflexões. Embora reconheça que o tema está intrinsicamente ligado à ergonomia, o autor não crê, e eu concordo, que seja de exclusividade dessa área. Chamou atenção a reação crítica de alguns colegas ergonomistas ao texto, mesmo com o autor ressaltando que a discussão não questiona a competência profissional. O essencial, como bem destacado, é a necessidade de abordagem multidisciplinar.

Recentemente me manifestei sobre o tema, com base na fala do auditor fiscal do trabalho que participou da elaboração das normas NR-01 e NR-17. O texto está disponível aqui (LINKAR COM O TEXTO). Em resumo, o item 1.5.3.2.1 da NR-01, “a organização deve considerar as condições de trabalho, nos termos da NR-17, incluindo os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.” deixa claro que o assunto está intimamente conectado com a ergonomia. Como a dimensão psicossocial é parte intrínseca da organização do trabalho, tema da ergonomia conforme NR-17, é pacífico que a ergonomia lidera essa questão. Ainda neste texto, ressaltei que a avaliação dos fatores de riscos psicossociais deve focar no ambiente e nas condições de trabalho, não sendo avaliações individuais ou diagnósticos clínicos. E que, independentemente do método escolhido pela empresa ou profissional, é essencial que as metodologias sejam claras, cientificamente validadas e aplicadas por profissionais qualificados.

E falando em método, tenho adotado o COPSOQ como metodologia chave para avaliar fatores psicossociais, por várias razões.

Comparadas ao formulário HSE, as perguntas são mais compreensíveis e, em minha opinião, não apresentam caráter tendencioso ou até mesmo invasivo que possa causar desconforto ao trabalhador durante o preenchimento.

A versão curta do questionário COPSOQ possui 41 perguntas que geram 26 dimensões agrupadas em 8 domínios, podendo gerar um “mapa de calor” dessas dimensões, que pode ser segmentado por grupos, a exemplo de setores, turno, GHEs ou sexo.

O COPSOQ calcula os resultados pela média dos itens de cada dimensão, e podem ser classificadas em tercis, pontos de corte (2,33 e 3,66) que dividem os dados em três grupos. Essa divisão funciona como um semáforo quanto ao impacto para a saúde: verde indica situação favorável, amarelo é intermediário, e vermelho sinaliza risco.

Portanto, a aplicação do questionário identifica as dimensões que indicam riscos importantes. Esse resultado pode ser confrontado com a exposição e as medidas de controle oferecidas pela empresa, dentre aquele grupo em análise, permitindo dimensionar os fatores de riscos psicossociais para inclusão no inventário de riscos da organização.

A discussão sobre os fatores psicossociais ainda está longe de se esgotar, com muitas arestas a serem aparadas. É fundamental seguirmos debatendo o tema de forma construtiva, para não desperdiçarmos tempo com questões menores, como disputas de protagonismo.

Os artigos reproduzidos neste blog refletem única e exclusivamente a opinião e análise de seus autores. Não se trata de conteúdo produzido pela RSData, não representando, desta forma, a opinião legal da empresa.

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