Segurança do Trabalho precisa olhar mais para a realidade brasileira

Mário Sobral, no artigo “Segurança do Trabalho também precisa se descolonizar”, propõe uma reflexão provocativa sobre os modelos que orientam a SST no Brasil.
A partir do conceito de decolonialidade, o texto questiona a dependência de referências estrangeiras tratadas como verdades universais.
O desafio não é rejeitar o conhecimento de fora, mas reconhecer que também existem saberes nacionais e latino-americanos capazes de transformar a prática prevencionista.
Pensar a Segurança do Trabalho a partir da nossa realidade é um passo importante para construir soluções mais efetivas, humanas e contextualizadas.

Segurança do Trabalho também precisa se descolonizar

Por: Mário Sobral

Nos últimos meses tenho aberto algumas janelas para a área da saúde coletiva. E digo janelas porque porta é coisa de acesso fácil. No meu caso, não. Eu até consigo ver o que está do outro lado, mas nem sempre consigo alcançar. Ainda assim, insisto em olhar. E como a minha base sempre foi a Segurança do Trabalho, tenho tentado trazer esses saberes para a nossa área.

Um dos conceitos que me impactou foi o de decolonialidade. Mas antes de chegar nele, preciso dar dois passos para trás. Primeiro, falar de colonialismo, que de forma simples, pode ser entendido como o domínio político e econômico de um povo sobre outro. Depois, da colonialidade, que é o que sobra. Não é mais o domínio formal, mas é o pensamento que fica. É a forma de organizar o mundo, de definir o que é conhecimento válido, quase sempre colocando a Europa como medida de todas as coisas.

E é aí que mora o meu incômodo. Porque seguimos presos a esse padrão sem perceber. Continuamos reproduzindo referência e métodos como se fossem universais, quando na verdade são apenas locais que ganharam status global.

A essa altura, já tem gente se remexendo na cadeira, pensando onde entra a Segurança do Trabalho nessa história. Calma. Chega agora.

A decolonialidade surge justamente como esse movimento de desconfiar do que parece óbvio, de questionar esse padrão único e abrir espaço para outras formas de saber e de interpretar o mundo. Não é negar o que já existe, mas é parar de tratar como se fosse a única possibilidade.

E, quando a gente olha para a Segurança do Trabalho no Brasil, percebe o quanto estamos condicionados a esse modelo. Quantas vezes tratamos conceitos e práticas importadas como verdades absolutas. Quantas vezes traduzimos materiais estrangeiros como se fossem superiores, quando na verdade estamos apenas reforçando uma dependência. Eu mesmo já me peguei fazendo isso mais de uma vez, sem sequer me dar ao trabalho de procurar referências nacionais ou latino-americanas.

O problema não é usar conhecimento de fora. O problema é não perceber que existe conhecimento aqui e seguir ignorando aquilo que poderia transformar a prática da Segurança do Trabalho no nosso próprio contexto. 

Os artigos reproduzidos neste blog refletem única e exclusivamente a opinião e análise de seus autores. Não se trata de conteúdo produzido pela RSData, não representando, desta forma, a opinião legal da empresa.

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