Brasil lidera os afastamentos por saúde mental. Ao longo de 2024, mais de 440 mil profissionais foram afastados devido a transtornos mentais.
Introdução
A saúde mental no ambiente de trabalho nunca foi tão debatida, especialmente diante do crescente número de afastamentos por transtornos psicológicos. Em 2024, o Brasil registrou mais de 440 mil afastamentos por ansiedade e depressão, um aumento alarmante de 67% em relação ao ano anterior. Esses dados refletem não apenas a intensificação das pressões laborais, mas também a necessidade urgente de um olhar mais atento para os riscos psicossociais no trabalho.
No artigo “Riscos Psicossociais no Trabalho – O que Muda com a NR 1”, abordamos as mudanças regulatórias que tornam obrigatória a gestão desses riscos a partir de 2025. Agora, aprofundamos a discussão sobre como a dinâmica do trabalho moderno tem impactado a saúde mental dos profissionais e quais medidas as empresas podem adotar para criar um ambiente mais equilibrado e saudável.
A Saúde Mental no Trabalho
Para muitas pessoas, é difícil admitir que o trabalho está prejudicando a saúde. No entanto, os dados mostram uma realidade preocupante: o Brasil lidera os afastamentos por ansiedade e depressão. Ao longo de 2024, mais de 440 mil profissionais foram afastados devido a transtornos mentais, um aumento de 67% em relação a 2023. Esses números evidenciam o impacto da dinâmica laboral na saúde dos trabalhadores e reforçam a necessidade de mudanças.
Diferentemente do que ocorria décadas atrás, quando a vida profissional era vista como o principal pilar da identidade e estabilidade social, hoje enfrentamos um novo cenário. O desafio atual está na busca por propósito, que vai muito além de simplesmente ter um emprego e desempenhar um papel na sociedade.
O problema não está no trabalho em si, mas na forma como ele é estruturado e na dificuldade que muitos encontram em se identificar com suas atividades diárias.
Diante disso, surge a pergunta: o que as empresas podem fazer para acolher esses profissionais? Como é possível construir um ambiente de trabalho mais saudável, sem que os trabalhadores precisem romper completamente com suas rotinas?
Repensar a produtividade é essencial. Embora as empresas precisem de resultados e rendimento, será que isso justifica a imposição de um ambiente de constante estresse e pressão? No final, essa abordagem pode ser prejudicial para o próprio negócio, levando a afastamentos frequentes e comprometendo a sustentabilidade da organização.

Afastamentos por Saúde Mental no Brasil
A crescente pressão por resultados no ambiente corporativo tem impactado significativamente a saúde mental dos trabalhadores brasileiros. Como consequência, o Brasil segue liderando os afastamentos por ansiedade e depressão. Em 2024, mais de 440 mil profissionais precisaram se afastar por condições emocionais, um número 67% superior ao registrado em 2023.
Diante desse cenário alarmante, medidas de proteção à saúde mental dos funcionários se tornam cada vez mais urgentes. A partir de maio de 2025, entra em vigor a atualização da NR 01, a norma reguladora que estabelece diretrizes essenciais para a segurança e bem-estar dos trabalhadores.
Fatores como assédio moral, estresse crônico, transtornos de ansiedade e sobrecarga mental deverão ser identificados e combatidos ativamente pelos gestores. Com a nova regulamentação, todas as empresas – independentemente do porte – precisarão adotar estratégias eficazes para reduzir riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
Com o Brasil liderando os afastamentos por transtornos mentais, surge a questão: quais são as principais razões para esse aumento expressivo em 2024?
Reflexos da Pandemia na Saúde Mental
Os afastamentos por transtornos mentais dispararam em 2024, reflexo de uma combinação de fatores que vão além do ambiente corporativo. A pandemia deixou marcas profundas, e o luto coletivo, com mais de 700 mil mortes no Brasil, agravou os casos de ansiedade e depressão. Paralelamente, a insegurança financeira aumentou a pressão sobre os trabalhadores, impulsionada pelo alto custo de vida e pelo crescimento da informalidade no mercado de trabalho.
As mudanças na vida pessoal também tiveram impacto significativo. Entre 2020 e 2024, as separações aumentaram 16%, exigindo que muitas pessoas reorganizassem suas rotinas abruptamente.
No trabalho, a cobrança por produtividade se intensificou, criando um cenário de estresse constante e contribuindo para o crescimento dos casos de esgotamento emocional. Esses fatores, somados, levaram ao aumento expressivo dos afastamentos por transtornos psicológicos.
Além disso, a pandemia trouxe mais visibilidade para a saúde mental, permitindo que mais trabalhadores reconhecessem seus sintomas e buscassem ajuda profissional. Esse movimento, conhecido como “quarta onda da Covid-19“, ajudou a impulsionar os diagnósticos de transtornos mentais, contribuindo para o recorde de afastamentos registrados em 2024.
O que as empresas podem fazer para promover a Saúde Mental?
Diante desse aumento expressivo dos afastamentos por transtornos mentais, torna-se essencial que as empresas adotem medidas eficazes para proteger e promover a saúde mental no ambiente de trabalho. Mais do que evitar problemas, o local de trabalho pode – e deve – se tornar um espaço que favoreça o bem-estar emocional e psicológico dos empregados.
Se, por um lado, as demandas corporativas seguem exigindo maior produtividade em menos tempo, por outro, há fatores protetores que podem minimizar os riscos psicossociais. Um dos mais importantes é a autonomia no trabalho, ou seja, permitir que os funcionários tenham certo grau de controle sobre o que fazer, quando fazer e como fazer. Embora essa flexibilidade não possa ser aplicada a todas as funções, concedê-la em algumas tarefas pode reduzir o estresse e aumentar o engajamento profissional.
Além disso, estudos apontam que o suporte social no ambiente de trabalho é um dos fatores mais eficazes na prevenção de transtornos mentais. Criar um ambiente onde os colaboradores se sintam acolhidos e tenham um bom relacionamento com gestores e colegas contribui significativamente para a saúde mental. A escuta ativa, o fortalecimento do trabalho em equipe e a possibilidade de contar com apoio em momentos difíceis são aspectos fundamentais para estabelecer uma rede de suporte sólida e eficaz.
Dessa forma, ao investir em um ambiente de trabalho que valorize a autonomia, o suporte social e a empatia, as empresas não apenas melhoram a qualidade de vida de seus funcionários, mas também reduzem afastamentos, aumentam a produtividade e garantem a sustentabilidade organizacional.
O que são riscos psicossociais no trabalho?
Os riscos psicossociais no trabalho referem-se a fatores organizacionais, relacionais e individuais que podem impactar negativamente a saúde mental e emocional dos trabalhadores. Eles surgem da interação entre a organização do trabalho, o conteúdo das tarefas, as relações interpessoais e o suporte disponível dentro da empresa. Exemplos incluem sobrecarga de trabalho, falta de autonomia, assédio moral, insegurança no emprego e ausência de apoio da liderança.
Diferentemente de outros riscos ocupacionais, como físicos, químicos e biológicos, que afetam a integridade física dos trabalhadores, os riscos psicossociais influenciam a saúde mental, podendo levar a transtornos como ansiedade, depressão e síndrome de burnout. Enquanto riscos ergonômicos, por exemplo, resultam em problemas musculoesqueléticos, os psicossociais estão diretamente relacionados ao sofrimento psíquico e à deterioração do bem-estar emocional.
A exposição contínua a esses fatores pode comprometer a produtividade, aumentar o absenteísmo e elevar as taxas de afastamento por transtornos mentais. Além disso, empresas que negligenciam a gestão desses riscos tendem a enfrentar maior rotatividade de funcionários e queda no engajamento, afetando diretamente sua sustentabilidade e competitividade no mercado. Com a atualização da NR 1, a gestão dos riscos psicossociais passa a ser uma obrigação legal, exigindo que as empresas adotem medidas preventivas e estruturadas. Para entender em detalhes como essa mudança impacta as organizações e quais estratégias podem ser aplicadas, confira o artigo “Riscos Psicossociais no Trabalho – O que Muda com a NR 1”.

Exemplos de riscos psicossociais no trabalho e como reconhecê-los
Os riscos psicossociais no trabalho podem ser classificados em três categorias principais:
- Organizacionais: Relacionados à estrutura, cultura e processos da empresa, como sobrecarga de trabalho, falta de autonomia, cobrança excessiva por metas e instabilidade profissional.
- Relacionais: Decorrentes da dinâmica interpessoal no ambiente laboral, incluindo assédio moral e sexual, conflitos frequentes entre colegas ou liderança autoritária.
- Individuais: Ligados às características pessoais do trabalhador e à forma como ele lida com a pressão e as exigências do trabalho, como dificuldades de adaptação, falta de suporte emocional e vulnerabilidade a transtornos psicológicos.
Os sinais de que um ambiente de trabalho apresenta riscos psicossociais incluem aumento do absenteísmo, presenteísmo (quando o trabalhador está presente, mas com produtividade reduzida), alta rotatividade e queixas recorrentes de estresse. No nível individual, sintomas como fadiga extrema, irritabilidade, dificuldade de concentração, insônia e desmotivação podem indicar que o trabalhador está sendo impactado por um ambiente psicologicamente desgastante. A identificação precoce desses fatores é essencial para a implementação de estratégias preventivas que protejam a saúde mental dos funcionários e garantam um ambiente organizacional mais saudável e produtivo.
Exemplo 1: Excesso de cobranças e metas abusivas
A imposição de metas abusivas e cobranças excessivas é um dos principais fatores psicossociais de risco no ambiente de trabalho. Quando as exigências são desproporcionais à capacidade e aos recursos disponíveis para a execução das tarefas, os trabalhadores ficam sob pressão constante, o que pode levar ao desenvolvimento de estresse crônico, ansiedade e síndrome de burnout. Esse cenário é agravado quando há falta de reconhecimento pelo esforço empregado, resultando em frustração e desmotivação.
Os efeitos psicológicos dessa sobrecarga incluem irritabilidade, fadiga mental, dificuldade de concentração e aumento do absenteísmo. Além disso, trabalhadores submetidos a pressões excessivas frequentemente adotam comportamentos contraproducentes, como longas jornadas sem pausas adequadas e autocobrança extrema, o que impacta negativamente sua saúde e reduz a produtividade. Para mitigar esse risco, as empresas devem estabelecer metas realistas, avaliar a carga de trabalho periodicamente e garantir que as demandas estejam alinhadas às condições reais de execução das tarefas.
Exemplo 2: Assédio moral e clima organizacional tóxico
O assédio moral no trabalho ocorre quando um trabalhador é exposto repetidamente a situações humilhantes, hostis ou abusivas, seja por parte de superiores ou colegas. Essas práticas podem incluir críticas excessivas, isolamento, ameaças veladas e atribuição de tarefas impossíveis. Quando esse comportamento se torna parte da cultura organizacional, cria-se um ambiente de trabalho tóxico, no qual o medo e a intimidação substituem a colaboração e o respeito.
As consequências para os trabalhadores expostos a esse tipo de ambiente são graves, incluindo aumento do estresse, ansiedade, queda na autoestima e, em casos mais extremos, depressão e afastamento do trabalho. Além dos impactos individuais, organizações com altos índices de assédio moral tendem a registrar elevados níveis de rotatividade, absenteísmo e baixa produtividade. Para evitar esse cenário, é essencial que as empresas implementem políticas de combate ao assédio, promovam canais seguros para denúncias e invistam no fortalecimento de uma cultura organizacional baseada no respeito e na valorização dos colaboradores.
Exemplo 3: Falta de clareza nas funções e insegurança no papel profissional
A falta de clareza nas funções ocorre quando um trabalhador não recebe informações objetivas sobre suas responsabilidades, metas e expectativas no cargo. Isso gera insegurança, reduz a autonomia e compromete a capacidade de tomar decisões, aumentando a ansiedade e o estresse ocupacional. A ausência de uma definição clara de tarefas também pode levar a conflitos internos e sobrecarga, especialmente quando há retrabalho ou disputa de responsabilidades dentro da equipe.
Esse cenário impacta diretamente a produtividade e a satisfação dos trabalhadores. Profissionais inseguros sobre seu papel na organização tendem a apresentar menor engajamento e maior propensão ao presenteísmo, no qual estão fisicamente no trabalho, mas com desempenho reduzido. Para evitar esses problemas, é fundamental que as empresas definam e comuniquem claramente as funções de cada trabalhador, forneçam feedbacks contínuos e garantam alinhamento entre lideranças e equipes.
Exemplo 4: Sobrecarga de trabalho e falta de pausas adequadas
A sobrecarga de trabalho ocorre quando um trabalhador recebe demandas excessivas, incompatíveis com o tempo e os recursos disponíveis para execução. Esse cenário leva ao esgotamento físico e mental, aumentando o risco de transtornos como estresse crônico, ansiedade e síndrome de burnout. Além disso, jornadas prolongadas sem pausas adequadas comprometem a recuperação do organismo, resultando em fadiga persistente e redução da produtividade.
A ausência de equilíbrio entre vida pessoal e profissional agrava esse quadro. Funcionários que não conseguem se desconectar do trabalho enfrentam dificuldades para manter relações interpessoais saudáveis e cuidar da própria saúde. Para minimizar esses impactos, as empresas devem garantir pausas regulares durante o expediente, respeitar a jornada de trabalho e adotar políticas que promovam a qualidade de vida, como flexibilização de horários e incentivo ao descanso adequado.
Exemplo 5: Ausência de reconhecimento e feedback
A falta de reconhecimento no ambiente de trabalho afeta diretamente a motivação e o engajamento dos trabalhadores. Quando esforços e resultados não são valorizados, os funcionários podem desenvolver sentimentos de desmotivação, frustração e desinteresse, impactando seu desempenho e aumentando o risco de afastamentos por transtornos psicológicos.
A ausência de feedback também prejudica o desenvolvimento profissional, deixando os trabalhadores sem referência sobre seu desempenho e sem oportunidades para melhoria contínua. Empresas que não adotam práticas de reconhecimento e comunicação clara tendem a enfrentar maior rotatividade de funcionários, além de queda na produtividade. Para mitigar esses efeitos, é essencial implementar uma cultura organizacional que valorize o feedback construtivo e reconheça as contribuições individuais e coletivas.
Exemplo 6: Instabilidade organizacional e medo de demissões
A instabilidade organizacional, causada por fusões, reestruturações ou incertezas econômicas, gera insegurança entre os trabalhadores, impactando diretamente sua saúde mental. O medo constante de demissões pode levar ao aumento do estresse, ansiedade e até sintomas depressivos, afetando a produtividade e o clima organizacional.
Quando há falta de transparência sobre mudanças na empresa, os funcionários podem sentir-se desvalorizados e desamparados, aumentando o turnover e reduzindo o engajamento. Para minimizar esses impactos, as empresas devem investir em uma comunicação clara e objetiva, oferecendo suporte psicológico e fortalecendo a cultura organizacional baseada na confiança e estabilidade.
Conclusão: Empresas proativas protegem suas equipes e fortalecem resultados
A crescente incidência de afastamentos por transtornos mentais evidencia a necessidade de mudanças na forma como as empresas gerenciam riscos psicossociais. O ambiente de trabalho pode ser um fator determinante para a saúde mental dos empregados, influenciando diretamente sua produtividade, engajamento e bem-estar. Negligenciar esses aspectos não só compromete a qualidade de vida dos trabalhadores, mas também impacta negativamente a sustentabilidade organizacional.
A identificação e prevenção dos riscos psicossociais exigem um compromisso ativo por parte das empresas, desde a adoção de estratégias para reduzir a sobrecarga de trabalho até a criação de uma cultura organizacional que valorize o suporte social e a saúde mental. Políticas claras de feedback, reconhecimento profissional e equilíbrio entre vida pessoal e profissional são medidas fundamentais para mitigar esses riscos.
Com a entrada em vigor da atualização da NR 01 em maio de 2025, as empresas precisarão estruturar suas práticas de gestão para atender às novas exigências legais. Aquelas que adotarem uma abordagem proativa não apenas evitarão sanções e custos com afastamentos, mas também fortalecerão a retenção de talentos e a reputação corporativa. Proteger a saúde mental dos trabalhadores é um passo essencial para garantir um ambiente de trabalho sustentável e produtivo.
Para aprofundar ainda mais esse tema e entender as mudanças regulatórias que impactarão todas as empresas, leia o artigo “Riscos Psicossociais no Trabalho – O que Muda com a NR 1”. Nele, abordamos detalhadamente as novas exigências legais, os impactos organizacionais e as melhores práticas para uma gestão eficiente dos riscos psicossociais.
Referencial Bibliográfico:
Portaria MTE nº 1.419, de 27 de agosto de 2024, Diário Oficial da União
Transtornos mentais estão entre as maiores causas de afastamento do trabalho. ANAMT
Brasil lidera em afastamentos por Saúde Mental no Trabalho. RSData
Riscos Psicossociais no Trabalho – O que Muda com a NR 1. RSData

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