Qual o impacto do FAP na folha de pagamento?

FAP: PORQUE É TÃO DIFÍCIL CONVENCER OS PROFISSIONAIS DE SUA IMPORTÂNCIA

A questão é difícil de responder, mas um aspecto bem observado por auditores é que tão logo divulgam-se dados de uma análise os setores envolvidos tendem a reagir negando a necessidade de mudanças e adaptações: “o SESMT já cuida do assunto”, “a CIPA já gera engajamento”, “os dados epidemiológicos já são trabalhados pela medicina”, “os treinamentos já são bem aplicados” etc. Por mais que o FAP esteja tomando milhões da empresa e que os dados mostrem um negócio que gera incapacidades laborais de forma contínua e consistente, insiste-se que as soluções já estão sendo desenvolvidas plenamente!

Recentemente li um artigo escrito a quatro mãos pelo juiz federal George Marmelstein e pelo professor de Direito Hugo de Brito Machado Segundo que tratava sobre as disputas entre o fisco e os contribuintes em torno das classificações das mercadorias, analisando a tendência do fisco sempre buscar a classificação mais onerosa e os contribuintes de buscar a classificação menos onerosa. Em dado momento eles analisaram os mecanismos mentais que condicionam nossas decisões e avaliações, e o trecho está citado a seguir.

“Em ciência cognitiva, há um viés conhecido como cognição motivada pelo valor ( value-motivated cognition ), que nada mais é do que a tendência de resolver ambiguidades factuais de modo a gerar conclusões compatíveis com os valores autodefinidos. Isso também está relacionado a outro viés cognitivo bem conhecido: o viés do meu próprio lado ( myside bias ), que é a tendência de interpretar os fatos de acordo com as nossas crenças, desejos e interesses.

(…) Assim, cada um dos lados enxerga o mundo a partir de sua própria perspectiva e preenche as lacunas da incerteza com suas cores favoritas. Os argumentos e evidências de suporte são aceitos facilmente, enquanto os contrários são submetidos a um rigor crítico mais intenso.

Para entender melhor essas armadilhas interpretativas produzidas pelos vieses cognitivos, vale muito a pena ler o livro de divulgação científica ‘A Arte de Pensar Claramente’, de Rolf Dobelli. Ele explica que, por força do viés de confirmação, temos uma inclinação para interpretar novas informações de modo que sejam compatíveis com nossas teorias, visões de mundo e convicções. Por isso, temos muita dificuldade em ‘matar nossas teorias favoritas’, preferindo distorcer as evidências quando elas se chocam com nossas pressuposições.

Se preferir algo mais robusto, o espetacular livro ‘Psicologia Social’, de David Myers, pode ser uma mão na roda para entender, com uma linguagem bem clara e acessível, os vieses cognitivos com mais profundidade, inclusive no contexto jurídico. Ele explica que somos ávidos por confirmar nossas crenças, mas menos inclinados a buscar evidências que possam refutá-las, fenômeno que pode ser designado de autoconfirmação. Segundo Myers, há várias estratégias para reduzir esse viés que derivam da dissonância cognitiva. Uma delas é fazer as pessoas pensarem em uma boa razão porque seus juízos poderiam estar errados; ou seja, forçá-las a considerar seriamente as informações refutatórias.”

Seja como for, o fato é que o prejuízo causado pelas incapacidades laborais (FAP, absenteísmo, custo dos 15 dias iniciais, FGTS durante o afastamento, reposição de mão de obra etc.) está presente nas organizações mas escondido nos balanços, o que talvez seja outro fator que impeça a percepção do sentido de urgência que a questão traz.

P.S.: O FAP é um cálculo transparente aplicado às alíquotas do Seguro contra Acidentes do Trabalho, operado em forma de monopólio pelo INSS; a Reforma Tributária tão desejada pelos empresários deve tornar privado este seguro, acabando também com a isenção do Simples Nacional e do agronegócio, o que deve mexer profundamente na percepção a partir da majoração das alíquotas e do custo mensal.

RODRIGO FERREIRA

Contador e administrador de empresas, especialista em tributação do Meio ambiente do trabalho – FAP, NTEP, eSocial, GILDART, SAT, FAE;
Professor e consultor de grandes empresas.

Os artigos reproduzidos neste blog refletem única e exclusivamente a opinião e análise de seus autores. Não se trata de conteúdo produzido pela RSData, não representando, desta forma, a opinião legal da empresa.

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