Qual indicador de SSO é mais importante?

Geralmente escrevo textos focados na interpretação de normas regulamentadoras ou sobre o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, porém hoje eu gostaria de criar uma reflexão sobre números na gestão de SSO (Segurança e Saúde Ocupacional).

Primeiro vamos falar sobre indicadores!

Indicador é um elemento que possui como objetivo apontar ou mostrar algo a alguém, expressando o desempenho de um determinado processo dentro de um intervalo de tempo. São números usados para comparar algo, seja em um gráfico ou em uma planilha.

Ao contrário do que muitos profissionais imaginam, eles estão presentes em nosso dia a dia e não é diferente no universo de SSO.

Indicador somente é elemento que possui relevância se ele tiver um objetivo, algo que se deseja alcançar, apontar ou mostrar. Os indicadores facilitam ver através de dados e números, as situações, ações e eventos que ocorrem em uma gestão ou em uma organização.

Mas é importante lembrar que nem tudo pode ser demostrado em números! Pois, nem sempre eles demonstram a realidade dos fatos e também podem ser apresentados de formas que levam a interpretações errôneas.

Precisamos pensar que os indicadores podem ajudar muito na melhoria do desempenho do setor de SSO de uma organização. Pois é possível construir dados que permitem ver o cenário atual e assim traçar metas de curto, médio e de longo prazo.  Que podem levar ao ajuste de ações ao longo do tempo, para se atingir aquela meta estabelecida.

Essa melhoria de desempenho está prevista até mesmo nas Normas Regulamentadoras.

Veja por exemplo o item 1.5.3.4 da NR 01. Segundo tal item, cabe as organizações adotar as medidas necessárias para melhorar o desempenho em SST. Algo similar podemos ler na ISO 45001 – Sistema de gestão de saúde e segurança ocupacional, no item 9 que trata da avaliação de desempenho. De acordo com a ISO, cabe as organizações estabelecer, implementar e manter um processo(s) para monitoramento, medição, análise e avaliação de desempenho em SSO.

Um dos indicadores de SSO mais comuns está relacionado aos acidentes e doenças ocupacionais. É importante neste aspecto, lembrar que a NR-01 traz pontos relevantes com relação a estes eventos adversos.

Sendo que é de responsabilidade das organizações analisar estes acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Levando em consideração pelo menos três pontos:

1º considerar as situações geradoras dos eventos, levando em conta as atividades efetivamente desenvolvidas, ambiente de trabalho, materiais e organização da produção e do trabalho;

2º Identificar os fatores relacionados com o evento;

3º Fornecer evidências para subsidiar e revisar as medidas de prevenção existentes.

Segundo a nova NR-04 publicada em agosto de 2022 uma das responsabilidades do SESMT é elaborar plano de trabalho e monitorar metas, indicadores e resultados de segurança e saúde no trabalho.

Mas antes de monitorar os indicadores é necessário primeiro estabelecer quais indicadores irão fazer parte do Sistema de Gestão da organização em que se quer atuar.

Vou trazer agora alguns indicadores que estão presentes em algumas normas que tratam do tema, assim você já pode começar a pensar em uma lista para a sua organização.

NBR 14280 – Cadastro de acidente do trabalho – Procedimento e classificação

O objetivo desta norma é identificar e registrar fatos fundamentais relacionados com os acidentes do trabalho, de modo a proporcionar meios para orientação aos esforços prevencionistas e fixar critérios para o registro, comunicação, estatística, investigação e análise de acidentes do trabalho, suas causas e consequências. Nela é possível encontrar a definição de diversos indicadores. Sendo os principais:

Tempo computado: Tempo contado em “dias perdidos, pelos acidentados, com incapacidade temporária total” mais os “dias debitados pelos acidentados vítimas de morte ou incapacidade permanente, total ou parcial”.

Prejuízo material: Prejuízo decorrente de danos materiais, perda de tempo e outros ônus resultantes de acidente do trabalho, inclusive danos ao meio ambiente. Estes muitas vezes representados em valores monetários.

Horas-homem de exposição ao risco de acidente (horas-homem): Somatório das horas durante as quais os empregados ficam à disposição do empregador, em determinado período.

Taxa de frequência de acidentes: Número de acidentes por milhão de horas-homem de exposição ao risco, em determinado período.

Taxa de frequência de acidentados com lesão com afastamento: Número de acidentados com lesão com afastamento por milhão de horas-homem de exposição ao risco, em determinado período.

Taxa de frequência de acidentados com lesão sem afastamento: Número de acidentados com lesão sem afastamento por milhão de horas-homem de exposição ao risco, em determinado período.

Taxa de gravidade: Tempo computado por milhão de horas-homem de exposição ao risco, em determinado período

Sobre os indicadores listados acima, gostaria somente de fazer um comentário sobre os indicadores de taxa gravidade e frequência. Estes usualmente aplicados em grande parte das organizações. Porém, muitos profissionais de SSO e gerentes não sabem para que servem estes dados ou o que fazer com eles.

Minha sugestão é que estes dados sejam utilizados para traçar novas metas. Ex.: Reduzir a taxa de frequência em 5 % ao ano.  Acredito que seja, até uma meta mais plausível que Zero Acidentes.

Para conseguir reduzir essa taxa em 5% ao ano, será necessário entender as causas dos acidentes e doenças e assim estabelecer e implementar ações com foco no objetivo traçado.

 Até porquê um acidente de trabalho é algo planejado ao longo do tempo e que combina diversos fatores, não é simplesmente um evento ao acaso. Suas causas podem estar isoladas no tempo e espaço.

Indicadores baseando na interpretação da OHSAS 18001

OHSAS 18001 (Occupational Health ans Safety Assessments Series) consiste numa norma internacional para sistema de gestão de segurança e saúde ocupacional. É uma ferramenta que fornece orientações para uma organização poder implantar e avaliar-se em relação aos seus procedimentos de segurança e saúde ocupacional.

Atualmente quando se fala de normas de gestão em SSO pensamos na ISO 45001, mas acredito que ainda temos coisas importantes que podem ser observadas na OHSAS 18001.

Vamos a alguns indicadores:

a) Quantidade de pessoas treinadas em SST;

b) Eficácia da formação em SST;

c) Quantidade de sugestões do pessoal para aperfeiçoamentos de SST;

d) Frequência das auditorias de SST;

e) Tempo necessário para implementar as recomendações das auditorias de SST;

f) Frequência e eficácia das reuniões das comissões de SST;

g) Frequência e eficácia das reuniões de SST com o pessoal;

h) Relatórios dos especialistas em SST;

i) Tempo necessário para implementar ações relativas a queixas ou sugestões;

j) Quantidade de relatórios de vigilância da saúde;

k) Relatórios da amostra sobre exposição pessoal;

l) Níveis de exposição do local de trabalho (por exemplo, ruído, poeira, vapores);

m) Utilização de equipamentos de proteção individual.

Exemplos de métodos que podem ser usados para medir o desempenho de SST:

a) Inspeções sistemáticas do local de trabalho, usando listas de verificação;

b) Visitas de segurança – por exemplo, numa base de “passando pelo local”;

c) Inspeções aos equipamentos, a fim de verificar se as partes relacionadas com a segurança estão eficazmente instaladas e em boas condições;

d) Amostragem à segurança – examinar aspectos específicos de SST;

e) Amostragem ao ambiente de trabalho – medir a exposição a substâncias ou energias e comparar com padrões aceites;

f) Amostragem do comportamento – avaliar o comportamento dos trabalhadores para identificar as práticas de trabalho inseguras que possam requerer correção (por exemplo, pelo aperfeiçoamento dos projetos de trabalho ou através da formação);

Claro que não é necessário ter todos os indicadores em uma organização, é preciso analisar qual o objetivo de cada um. Pois, corre o risco de se gastar muito tempo em números e pouco tempo nas ações de proteção do trabalhador.  Os números são importantes, mas o jogo é ganho no campo com ações objetivas, realizadas dia após dia.

Agora vamos a alguns indicadores de uma norma ainda mais “velhinha”.

Guia para SISTEMAS DE GESTÃO DE SAÚDE E SEGURANÇA INDUSTRIAL – British Standard 8800:1996

Esta Norma Britânica foi preparada pelo Comitê Técnico HS/1, sob a direção do Conselho Setorial de Sistemas de Gerenciamento. Ela prevê orientações sobre sistemas de gerenciamento de saúde e segurança ocupacionais de forma a auxiliar na estruturação de políticas e objetivos de SSO dentro de uma organização.

Exemplos de Indicadores:

a) o cumprimento de regulamentos relevantes;

b) as quantidades de atos inseguros relacionados com o transporte, identificadas por meio de observações planejadas;

c) comentários relevantes de clientes, empregados e motoristas dos veículos de fornecedores;

d) evidência de impactos de empilhadeiras contra prateleiras de armazenamento e guardas protetoras;

e) quase acidentes conhecidos e informados;

f) acidentes de transporte.

Claro que teremos muitos outros indicadores que podemos construir. Exemplos:

Quantidades de Equipamentos de segurança trocados;

Quantidade de exames médicos alterados;

Quantidade de desvios de procedimentos identificados;

Horas empregadas em treinamentos:

Quantidade de proteções coletivas implementadas x número de equipamentos;

Quantidade de APR por setor.

 Como realizar a seleção de indicadores de resultado?

As organizações devem desenvolver uma gama de medidas relevantes em relação às suas particulares circunstâncias. As necessidades de informações variam em níveis diferentes e em partes diversas de uma organização.

A seleção de indicadores de resultado apropriados depende dos objetivos definidos.

Vamos a um exemplo: Uma organização gostaria de eliminar os acidentes envolvendo máquinas sem proteções coletivas na minha empresa.

Deste objetivo já podemos pensar em diversos indicadores:

Quantidade de máquinas sem proteção, quantidade de acidentes envolvendo máquinas nos últimos 3 anos, quantidade de manutenções preventivas em 2022, quantidade de inspeção realizadas pela CIPA e SESMT em 2022 e a quantidade de não conformidades encontradas.

Mas qual o indicador ou número mais importante de todos na Gestão de SSO?

Existe uma frase de Robert Kaplan e David Norton que diz “O que não é medido não é gerenciado”.

Em grande parte, sou obrigado a concordar. Pois eu tenho que gerenciar uma empresa, pagar contas e entregar resultados para clientes. Entretanto, lembra que no começo deste texto eu escrevi que os números não podem demonstrar tudo?

Além disso, muitas vezes eles podem ser um pouco frios e não conseguem refletir e mostrar a história que envolve aquele contexto onde ele está inserido.

Por exemplo: Quantos acidentes de trabalho fatais ocorreram no Brasil em 2022?

Não importa o valor que você responda, será somente um número. Não irá demostrar o dado causado as pessoas. 

Talvez até daria para calcular o valor de uma indenização. Mas quanto custa a ausência de um pai ou uma mãe para seus filhos?

É neste ponto que eu gostaria de criar uma reflexão.

Quantos acidentes você conseguiu evitar depois de tantas horas de trabalho?

Na minha visão, este é o número mais importante para nós, entretanto é impossível saber. Talvez poderíamos até estimar.

Mas gosto de pensar que se depois de tanto trabalho, conseguirmos evitar um acidente com um trabalhador, isso já seria um bom número.

Pois quanto vale uma vida de trabalhador?

Lembra daquele trabalhador que estava sem óculos e você pediu para ele colocar? Aquele isolamento que tinha caído e você orientou a arrumar? Aquele treinamento que você deu o seu melhor e o trabalhador saiu da sala sabendo exatamente como se proteger? Aquele dia que você viu uma máquina sem proteção coletiva e realizou uma reunião para pedir a instalação e logo lá estava a máquina protegida?

Será que você não evitou um acidente em cada um destes dias?

Quem sabe um dia exista uma forma de calcular quantos acidentes evitamos e poderemos postar em nossas redes sociais.

EVITAMOS 1 ACIDENTE DE TRABALHO NESTA SEMANA!  

O que você achou deste texto?



Os artigos reproduzidos neste blog refletem única e exclusivamente a opinião e análise de seus autores. Não se trata de conteúdo produzido pela RSData, não representando, desta forma, a opinião legal da empresa.

Categoria

Últimas Postagens

Siga a RSData

Inscreva-se em nossa Newsletter:

Pular para o conteúdo