Neste artigo, Sérgio Rezende explora a complexa relação entre acidentes e riscos psicossociais, destacando o impacto dos fatores humanos na ocorrência de incidentes no ambiente de trabalho. Rezende argumenta que de 80% a 90% dos acidentes estão relacionados a falhas humanas, que não devem ser confundidas com culpa do trabalhador, mas sim com a influência de fatores psicossociais como saúde mental e estresse ocupacional. O autor também aponta que o tratamento inadequado desses fatores contribui para a continuidade de acidentes graves e fatais. A solução, segundo Rezende, é a inclusão de uma abordagem focada nos riscos psicossociais dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO/PGR), aliada à atuação de profissionais da psicologia do trabalho para promover saúde mental, percepção de risco e comportamento seguro.
Por Que os Acidentes Acontecem
Iniciei minha carreira na área de Prevenção (SGI – QSSTMA) em julho de 1985.
Até então são 39anos atuando em Prevenção no campo operacional e como gestor de Sistemas de Gestão de SST robustos e bem estruturados, com culturas capilarizadas, junto com Equipes competentes em SST, em empresas de médio e grande porte, no Brasil e África. Sempre focado no cuidado com a segurança operacional dos processos produtivos (engenharia a montante) e, de forma prioritária, incondicional e inegociável, na Proteção das Pessoas (medidas preventivas), mas infelizmente, tendo que conviver com notícias tristes relacionadas a incidentes e acidentes graves, inclusive e com perda de vidas. Muito Triste!
Tendo em vista todos estes anos de experiência, considerando a gestão de processos de SST, dados estatísticos, acompanhamentos de campo, investigações e analises de ocorrências de eventos não desejados que incluem “desvios/não conformidades, incidentes e acidentes, inclusive graves e fatais”, estou certo, inclusive, minhas convicções apontam para os mesmos dados levantados por muitos colegas no Brasil e no Exterior, que, em relação aos Fatores Humanos (é importante entender o conceito) de 80% a 90% das ocorrências de acidentes estão relacionadas com “Falhas Humanas”, sendo os outros 20% a 10% relacionados a falhas na engenharia, aspectos da qualidade, fabricação, entre outros, que também têm relação com os “Fatores Humanos”.
Obs.: nunca confundir ‘falhas humanas” com culpa do Trabalhador, jamais!!! Mas sim, falhas humanas são encontradas, inclusive, na causa raiz.
Falhas Humanas e Riscos Psicossociais
As “Falhas Humanas” (não culpa) podem ocorrer por diversos motivos relacionados a “Saúde Mental” que venho apontando a anos e que só agora estão legalmente dando atenção, e no meu ponto de vista, ainda de forma singela.
Vejam que o “Risco Psicossocial” aparece citado apenas em três (03) subitem do item 1.5 da NR01, o qual deveria, no mínimo aparecer com detalhes em um item especifico.
Cito alguns Fatores de “Riscos Psicossociais” que motivam as “Falhas Humanas” em toda a cadeia hierárquica, desde a alta direção, alta e média liderança até aos profissionais operacionais de campo (liderados).
Exemplos de Riscos Psicossociais (RP)
- Insegurança na execução da atividade. Principalmente atividades consideradas críticas, como por exemplo: trabalhos em atura extremas, espaços confinados, operação de maquinas em condições adversas, intervenção em instalações elétricas, etc.
Exemplo de RP: medo seguido de alto nível de estresse ocupacional, fobia, autossabotagem, ansiedade, transtorno de pânico, falta de atenção/concentração, etc);
- Trabalho prolongado e excesso de demanda.
Exemplo de RP: fadiga mental, queda de produtividade, síndrome de burnout, etc;
- Desinformação operacional.
Exemplo de RP: confusão mental, desanimo, apatia, etc;
- Exigências contraditórias.
Exemplo de RP: frustração, insatisfação, confusão mental, etc;
- Assédios sexual e/ou moral.
Exemplo de RP: depressão, sofrimento mental, sentimento de auto destruição, etc;
- Tratamento injusto e falta de reconhecimento.
Exemplo de RP: depressão, sofrimento mental, síndrome de burnout, etc;
- Ambientes tóxicos.
- Exemplo de RP: depressão, ansiedade, síndrome de burnout, etc;
- Incluem as Influências externas (vida cotidiana x vida profissional = Fatores Humanos).
Exemplo: possibilidade de haver Trabalhador com algum tipo de transtorno mental e/ou mesmo cognitivo, não aparente, que não permitiu a eficaz captação das orientações e aprendizados durante os treinamentos de capacitação de Segurança e dos Procedimentos Executivos, dificultando também a “Percepção de Risco”, a “Tomada de Decisão Consciente”, o entendimento do “uso correto do EPI” e a aplicação do “Comportamento Seguro”.
Obs.: todos estes Fatores, incluindo as “Influencias Externas” apontados, influenciam negativamente no “Aprendizado, na Percepção de Perigos e Riscos, na Tomada de Decisão, bem como na aplicação do Comportamento Seguro”.
A Solução é tratar de forma descomplicada os “Risco Psicossocial” junto aos demais Riscos Ocupacionais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO/PGR) , conforme determina a NR01, ou seja, levantando os Perigos (fatores), identificando, analisando e classificando o nível dos Riscos Psicossociais.
Para esta tratativa, recomendo a inclusão do Profissional da Psicologia do Trabalho (ex.: Psicóloga (o) do Trabalho) no Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho – SESMT, formando uma equipe multidisciplinar com objetivo de implantação um Programa de Psicologia do Trabalho com Foco na Prevenção dos Riscos Laborais, principalmente junto aos Trabalhadores operacionais de campo, onde será possível realizar as avaliações Psicológicas e Psicossociais, trabalhando os Fatores Humanos, Aspectos Cognitivos e Perfil Psicológico, fomentando o Acolhimento, a Inclusão, aportando Orientações Psicológicas, facilitando o alcance da Saúde Mental, da Interdependência Comportamental e assim fortalecer a Percepção dos Perigos e Riscos, e da pratica do Comportamento Seguro
Só assim, tratando os temas relacionados à Saúde Mental, Fatores Humanos, Riscos Psicossociais (fatores) em conjunto com as demais importantes ações tradicionais (Sistemas de Gestão de SST) e novas Tecnologias de Prevenção, conseguiremos responder os “POR QUES” e deixaremos de ter tantas notícias tristes referentes a acidentes graves e fatais.
“Segurança tem que ser prioridade por ser VALOR e não simplesmente por ser prioridade!”

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