Os Fatores Psicossociais, os Acidentes e as Doenças do Trabalho

Quantas vezes você já se questionou referente a causa raiz dos acidentes? Será que realmente identificou o “Calcanhar de Aquiles” ou o problema está apenas mascarado, tampado pela peneira?

Muitas vezes nos restringimos a enxergar apenas o que está visível a olho nu, sem dar atenção ao que está por trás dos processos, mascarado pelos pequenos detalhes que podem ser considerados normais.  Hoje o Brasil possui, entre 2012 e 2020, de acordo com o observatório de segurança, 23.083 casos de afastamentos por B91 de Depressões e Episódios Depressivos, o que representa 3% do levantamento geral desse estudo. Considerando que o Brasil está a passos lentos na questão de nexo causal da doença mental ligada ao trabalho, esse número já é expressivo e vai me ajudar a explicar o meu ponto de vista referente aos acidentes.

É muito fácil eu virar para o trabalhador e falar: “Você não cumpriu o processo”; “Olha, em nenhum momento você seguiu a rotina”; “Fulano, a falha foi sua por esquecer o EPI”. Mas eu discordo, em alto e bom som, desse tipo de abordagem, com os meus 4 anos de atuação na área, para mim é notório que grande parte dos acidentes acontecem por falha na organização do trabalho (que é um item que precisa ser analisado, conforme NR17 – Ergonomia), e com isso cito alguns aspectos psicossociais que podem estar causando os acidentes:

  • cargas de trabalho excessivas;
  • exigências contraditórias e falta de clareza na definição das funções;
  • falta de participação na tomada de decisões que afetam o trabalhador e falta de controlo sobre a forma como executa o trabalho;
  • má gestão de mudanças organizacionais, insegurança laboral;
  • comunicação ineficaz, falta de apoio da parte de chefias e colegas;
  • assédio psicológico ou sexual, violência de terceiros.

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Os acidentes podem estar sendo causados pelos aspectos psicossociais, que nada mais é do que a organização do trabalho, a relação do colaborador com o ambiente em que atua… 8 horas do seu dia, 44 horas semanais da sua semana, 220 horas mensais da sua vida. É injusto eu ver só um lado da moeda e não tentar entender a fundo o que acontece, não dar atenção ao relato do empregado, precisamos ser genuínos no ato de cuidar do outro, esse é o nosso papel. E como fazer isso? Como sempre fizemos… comunicando, dando visibilidade ao time de lideranças e alta direção, e buscando ter bom relacionamento com todas as áreas para mostrar o melhor caminho, afinal, às vezes, falta conhecimento do quanto uma jornada de 15 horas seguidas pode impactar dentro de um processo produtivo por exemplo, nem todo mundo tem a nossa visão prevencionista. Por vezes, falta até mesmo interesse ou capacidade de percepção de riscos do próprio gestor e/ou trabalhador, precisamos capacitar as pessoas para identificar os fatores de risco, calibrar o olhar para antecipar uma situação que possa acontecer, e assim despertar a cultura de segurança no empregado, fazer com que ele veja a segurança como um valor, principalmente as lideranças, por carregarem a responsabilidade de ser um exemplo para o time e incentivar o comportamento prevencionista.

Muitas vezes o processo não foi seguido pois a pessoa está trabalhando a 15 horas seguidas e seu poder de raciocínio se tornou nulo.  O Pai de família perde um membro em um acidente ao conduzir um veículo da empresa por estar com abalo psicológico devido a morte de um parente ou assédio sofrido no local de trabalho. A mãe que atua na área da saúde se contaminou com a Hepatite A pois esqueceu de descartar o perfurocortante em local adequado, depois de ter trabalhado a noite toda e ter esticado o plantão para suprir o absenteísmo de outro colega do time.

É claro que existem os casos de falta de atenção, descuido (deve-se analisar a situação como um todo), mas não podemos fechar os olhos para o que a empresa faz ao time, e ainda sim “culpar” por não ter seguido uma rotina. As cargas de trabalho excessivas, o assédio psicológico e a alta cobrança são cenários reais, e isso é triste… pois não valoriza o maior bem que a companhia possui: o trabalhador. E é exatamente por isso que resolvi falar sobre este tema, às vezes gastamos energia mostrando o que fizeram de errado no processo e não damos atenção, por exemplo, a sobrecarga de trabalho cognitiva (ex: alta cobrança por produção ágil) ou física (ex: hora extra frequente). Segurança comportamental – diagnóstico e evolução. Isto é viável! E ajuda muito.

Para finalizar, as relações precisam ser mais humanas, todo o nosso trabalho é em torno de pessoas, então de nada vai adiantar ter todo o maquinário mais moderno no mercado, se a instituição não investe em um ambiente laboral saudável, e muito menos na saúde mental do seu time. Não adianta lutar com os indicadores de acidente lá em cima quando se sabe que a raiz do problema não é o comportamento final do trabalhador, mas sim um conjunto de ações da empresa. Não existe segurança no trabalho se não tem um bom diálogo com o colega ao lado, não adianta fornecer EPI – este deve ser na hierarquia das medidas de controle a última ação – se a liderança fica cobrando a todo instante o cara que tá na linha de produção dando o seu melhor e sempre querem mais, não adianta contratar um ser humano e tratá-lo como máquina. Quando for investigar um acidente use as técnicas adequadas, prepare as pessoas para entender e atender o que buscam, se coloque no lugar, coloque os sapatos daquela pessoa e pense na melhor alternativa para diminuir a dor da caminhada, não busque culpar, mas sim encontrar soluções. Tenha em mente que nada muda da noite para o dia, mas se VOCÊ fizer a sua parte, aos poucos as coisas começam a mudar, como sempre digo: Pense fora da caixa.

Nayara Lima
Técnica de Segurança do Trabalho

Os artigos reproduzidos neste blog refletem única e exclusivamente a opinião e análise de seus autores. Não se trata de conteúdo produzido pela RSData, não representando, desta forma, a opinião legal da empresa.

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