Gestão dos Riscos Psicossociais no Trabalho

Educação Socioemocional

No ambiente corporativo de hoje, a gestão dos riscos psicossociais no trabalho tornou-se um tema fundamental. E não é à toa: o sofrimento psíquico e os transtornos mentais têm trazido consequências preocupantes, como o aumento de afastamentos por problemas de saúde mental e o crescimento nos índices de suicídio laboral. Lúcia Sebben mostra como a educação socioemocional é uma solução necessária para formar líderes conscientes que criam espaços de trabalho mais saudáveis, inclusivos e produtivos.

Quando líderes desenvolvem competências como empatia, autoconsciência e a capacidade de tomar decisões éticas, conseguem impactar positivamente a saúde mental de suas equipes. O resultado? Um ambiente onde o bem-estar humano e o sucesso organizacional caminham juntos, de forma equilibrada e sustentável.

Como a Educação Socioemocional Forma Líderes Conscientes Para a Gestão dos Riscos Psicossociais no Trabalho

Quando falamos em implantar um modelo de gestão nas organizações orientado para a gestão dos fatores de riscos psicossociais, de forma que mitigue o sofrimento psíquico no trabalho, promova a saúde mental e previna acidentes de trabalho, estamos, na verdade, começando a navegar em águas desconhecidas.

A recente atualização da NR1 trouxe consigo muitas inquietações e a busca acelerada por meios de implantar os ajustes necessários. Muitas dúvidas foram suscitadas, mas nem todas levarão à resposta certa. Digo isso pela dificuldade de alguns em perceber o que realmente significa tudo isso. Para alguns, trata-se basicamente de ajustar seus relatórios e planejamentos de forma a incluir informações sobre a gestão de riscos psicossociais, tratando o tema de forma pragmática e burocrática. Para outros, resume-se à busca de ações de marketing que promovam uma imagem do tipo “somos bonzinhos”, porém sem nenhuma alteração cultural ou revisão de seus valores e dogmas.

Sem uma sincera e profunda reflexão sobre a cultura organizacional e o modelo de gestão vigente, não haverá gestão dos riscos psicossociais, e tudo se resumirá em um grande teatro apenas na tentativa ilusória de cumprir uma legislação e evitar sanções. Isso não funciona!

Passamos a compreender a gestão das pessoas sob uma perspectiva até então não observada, mas que pode soar óbvia e romântica – a educação socioemocional.

O conceito de educação socioemocional fala sobre o processo de desenvolvimento de competências sociais e emocionais fundamentais para o bem-estar pessoal e sucesso na vida pessoal e profissional, como, por exemplo, engajamento social, resiliência e empatia. No entanto, exige que cada líder observe os impactos de seu comportamento e de suas decisões sobre os demais, ou seja, atentando para a responsabilidade frente aos seus liderados.

Um dos principais autores e defensores da educação socioemocional é Maurice J. Elias, professor de Psicologia da Universidade Rutgers e vice-presidente do Conselho de Administração do Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning (CASEL). Elias argumenta que a educação socioemocional promove ambientes de aprendizado mais saudáveis e produtivos.

A educação socioemocional envolve o desenvolvimento de habilidades essenciais que contribuem para estabelecer relacionamentos saudáveis, tomar decisões responsáveis e enfrentar desafios de maneira positiva. Essas habilidades incluem:

  1. Autoconsciência: Compreender e reconhecer as próprias emoções e seus impactos nos relacionamentos.
  2. Autogestão: Implica no cultivo da resiliência, na regulação emocional, no controle de impulsos e no estabelecimento de metas.
  3. Consciência social: Ter empatia, entender e respeitar as diferenças culturais e sociais, além de demonstrar interesse genuíno pelos outros, percebendo os efeitos de sua influência nos ambientes ao seu redor.
  4. Habilidades de relacionamento: Saber se comunicar bem, trabalhar em equipe, resolver conflitos e construir vínculos saudáveis, sobretudo com pessoas que desafiem seus limites. Aqui, fala-se também em adaptabilidade e flexibilidade frente às diferenças individuais.
  5. Tomada de decisões responsáveis: Analisar as consequências das ações e fazer escolhas éticas e seguras.

Dar atenção aos fatores humanos, ou aos fatores de riscos psicossociais no trabalho, implica em expandir a consciência sobre como chegamos até este momento, onde os números de suicídio laboral crescem assustadoramente. Em 2024, a ansiedade se consolidou como a terceira maior causa de afastamento no Brasil, respondendo por cerca de 51% dos casos de afastamento por saúde mental, enquanto o Brasil segue sendo o país com maior número de casos diagnosticados de transtornos de ansiedade, representando 9,3% da população, e os episódios depressivos também seguem aumentando.

Líderes conscientes desempenham um papel importante nesse processo, integrando valores, pessoas e organização em suas decisões de forma atenta às demandas de todas as partes. Assim, pessoas saudáveis e empresas lucrativas não devem ser vistas como algo confrontativo, mas como o resultado de uma liderança consciente da influência que exerce sobre seus times, ajudando a prepará-los para os desafios do dia a dia com responsabilidade.

Essa consciência capacita o líder a perceber os impactos que sua influência exerce sobre a saúde e a segurança de seu time. O líder consciente educa seus liderados através do exemplo e da inspiração, praticando valores fundamentais que se manifestam por meio de sua competência socioemocional. O líder consciente dos limites humanos conduzirá seu liderado a observar e respeitar seus próprios limites, permitindo que sua saúde mental seja preservada. Já o líder que privilegia a produção e ignora os limites conduzirá seu liderado a ir além do suportável, deteriorando sua saúde mental e se encaminhando em direção ao acidente.

Portanto, a educação socioemocional é desenvolvida através da conexão entre a liderança e seu time, promovendo um espaço de trabalho mais saudável, produtivo e colaborativo. Nesse ambiente, cria-se um local de trabalho ético, seguro e inclusivo, incentivando uma cultura de transparência e confiança. Neste modelo, as pessoas passam a se sentir seguras para expressar seus pensamentos e sentimentos, pedir ajuda, reconhecer seus limites e, ao mesmo tempo, saber que serão compreendidas, aceitas e apoiadas em suas necessidades. O verdadeiro sentido de time!

Diante disso, podemos perceber a segurança psicológica se estabelecendo, criando espaços de expressão com sentimentos de pertencimento e validação da condição humana do trabalhador, sem a necessidade de manter o estigma dos vieses de confirmação impostos pelo mundo do trabalho até então. Nessa perspectiva, passamos a compreender o ser humano em sua singularidade, por trás de cada profissional, trazendo uma nova dimensão à gestão das pessoas.

Leia também: A Influência da Exposição Pública na Saúde Mental e Saúde Mental Entre Trabalhadoras Negras

Os artigos reproduzidos neste blog refletem única e exclusivamente a opinião e análise de seus autores. Não se trata de conteúdo produzido pela RSData, não representando, desta forma, a opinião legal da empresa.

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