Dr. Fernando Akio Mariya, em “Reflexão sobre o tempo”, cutuca uma verdade incômoda: telefone tocando não é sinônimo de valor.
Em dezembro, no fechamento de indicadores, a gestão de SST vira uma maratona entre PCMSO, PGR, jurídico e pressão da diretoria.
E aí nasce o mito do gestor “para-raios”: o que segura tudo, apaga incêndio e chama isso de compromisso.
Só que o custo aparece no corpo: cansaço, ansiedade e vida pessoal em segundo plano.
Talvez seja hora de mudar o KPI: construir segurança sem perder a própria saúde.
- Leia a seguir:
Reflexão sobre o tempo
Por: Dr. Fernando Akio Mariya
Estamos fechando os indicadores de saúde. É dezembro. O Diretor Financeiro me pergunta o que eu quero de final de ano. Eu olho para o celular vibrando pela décima vez com uma mensagem do jurídico e respondo… “Não sei… talvez não ter um infarto antes dos 50? Talvez ter a agenda vazia? Talvez não ter um monte de exames ocupacionais para realizar? Um reajuste do plano de saúde de um dígito? O PCMSO e o PGR conversando perfeitamente.”
Ele ri, dá um tapinha nas minhas costas e diz: “Gestor de SST raiz é assim mesmo, guerreiro. A empresa precisa de você.”
Anos se passaram. É dezembro novamente. Estou aposentado. Um jovem coordenador, cheio de energia e olheiras, me liga pedindo uma “mentoria”. Ele pergunta do que eu sinto falta. Olho para a minha sala. Os manuais de Compliance e as NRs comentadas foram doados. O notebook corporativo foi devolvido. Ninguém vai me ligar de madrugada porque teve um acidente grave no terceiro turno. O silêncio é absoluto.
Antes, esse silêncio me aterrorizava. Eu achava que ser importante era ter o telefone tocando. Eu me alimentava da crise.
Eu me lembro tão bem… De me orgulhar de ter reduzido o FAP da empresa às custas da minha própria pressão arterial. De ter “vencido” a discussão com o sindicato, mas ter perdido o jantar de aniversário da minha esposa. De ouvir: “Você veste a camisa da empresa!”, como se isso fosse um elogio, e não um atestado de que eu estava esquecendo de vestir a minha própria pele.
O jovem no telefone espera que eu diga: “Sinto falta da adrenalina”. Mas, com a voz firme de quem aprendeu tarde demais, eu respondo: “Sinto falta dos fins de semana que eu passei respondendo e-mail achando que o mundo ia acabar se eu não o fizesse.”
Ele fica mudo… porque nós dois sabemos que a empresa continua lá, rodando, com ou sem a gente.
E então eu entendi. A gestão de SST criou um mito de que o bom gestor é o “para-raios”, aquele que absorve todos os problemas: a pressão da produção, a dor do trabalhador, a exigência da diretoria. E quem reclama é “mole”. Quem desliga o celular é “descompromissado”.
Não caia nessa. Aproveite agora para mudar a métrica do seu sucesso. O verdadeiro KPI não é apenas o número de acidentes zerado ou o PCMSO perfeito. O indicador real é: Você consegue jantar sem falar de trabalho? Você tem amigos que não são do SESMT ou do RH? Você sabe quem você é quando tira o crachá do pescoço?
Cuide dos funcionários, sim. Mas cuide de você primeiro. Porque o CNPJ é imortal, mas o seu CPF tem prazo de validade. Que a sua geração entenda o que a minha demorou a perceber: gerenciar riscos ocupacionais só faz sentido se o maior risco de todos — o de perder a própria vida enquanto trabalha — for mitigado dentro da sua própria casa.
O crachá fica na portaria. A gente, não. Aproveite a jornada! Feliz Natal e um 2026 com muita saúde!
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