Sérgio Rezende, no artigo “O Caminho para o Gerenciamento dos Riscos Psicossociais e a Construção de Ambientes de Trabalho Saudáveis”, defende uma mudança de abordagem na gestão da saúde mental no trabalho.
O tema vai além de cumprir a NR-1: exige entender a organização do trabalho, ouvir pessoas e agir sobre as causas dos riscos. A AEP, a Psicologia e o PGR aparecem como peças centrais nesse processo. O desafio das empresas é sair da reação e construir ambientes mais saudáveis, seguros e sustentáveis.
O Caminho para o Gerenciamento dos Riscos Psicossociais e a Construção de Ambientes de Trabalho Saudáveis
Por: Sérgio Rezende
“O cenário atual exige uma mudança de abordagem”
O Brasil vive um dos momentos mais preocupantes da história recente quando o assunto é saúde mental relacionada ao trabalho. Dados do Ministério da Previdência Social e do INSS demonstram crescimento expressivo dos afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, especialmente relacionados à ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outros agravos associados às condições e à organização do trabalho.
Ao mesmo tempo, os dados oficiais de acidentes do trabalho continuam apresentando crescimento nos últimos anos. Diversos estudos internacionais apontam que fatores humanos, comportamentais, organizacionais e psicossociais estão presentes em grande parte dos incidentes e acidentes ocupacionais.
Esse cenário evidencia que não basta tratar apenas as consequências do adoecimento ou dos acidentes. É necessário incluir a ciência da psicologia no processo de avaliação de forma identificar a causa raiz e controlar esta causa antes que produza sofrimento mental, afastamentos, perdas humanas, prejuízos financeiros, notificações, autuações e passivos trabalhistas.
É justamente nesse contexto que a nova redação da NR 01 fortalece a necessidade de inclusão dos fatores de riscos psicossociais no processo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), exigindo das organizações uma abordagem sistemática, contínua e baseada em evidências.
A Avaliação Ergonômica Preliminar – AEP é o ponto central de partida para o processo de avaliação dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
Embora os fatores de riscos psicossociais estejam formalmente inseridos no GRO da NR 01, o processo de avaliação deve iniciar pela compreensão da organização do trabalho no ambiente de trabalho, fundamento central da Ergonomia prevista na NR 17.
Por essa razão, a Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP) torna-se uma ferramenta estratégica para identificar aspectos da organização do trabalho que podem gerar riscos psicossociais.
A própria NR 17 estabelece que a ergonomia visa:
Adaptar as condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores.
Dessa forma, a AEP permite compreender:
* Carga de trabalho;
* Ritmo de trabalho;
* Jornadas;
* Metas e cobranças;
* Grau de autonomia;
* Comunicação organizacional;
* Liderança;
* Reconhecimento profissional;
* Justiça organizacional;
* Relações interpessoais;
* Apoio social;
* Conflitos de papéis;
* Ambiguidade de funções;
* Assédios ou qualquer ou outro tipo de violência no trabalho;
* Demandas emocionais.
Somente após essa compreensão é possível avançar para uma avaliação consistente dos fatores de riscos psicossociais.
O Fluxograma como Caminho Metodológico para o GRO referente ao Processo de A-FRPRT
O fluxo apresentado neste artigo representa um caminho lógico, técnico e alinhado aos requisitos das NR 01 e NR 17 para proceder a Avaliação de Riscos Psicossociais dos ambientes de trabalho, observando o Ciclo PDCA para o GRO e compor o PGR.

Etapa 1 – AEP (Avaliação Ergonômica Preliminar)
A avaliação inicia pela análise das condições e da organização do trabalho.
Objetivo:
* Reconhecer situações potencialmente geradoras de riscos psicossociais;
* Identificar demandas cognitivas, emocionais e organizacionais;
* Avaliar a necessidade de aprofundamento da análise/avaliação (AET).
Etapa 2 – Mapeamento dos Processos Operacionais Produtivos
É necessário compreender como o trabalho acontece na prática.
Devem ser mapeados:
* Processos;
* Atividades;
* Interfaces;
* Recursos;
* Responsabilidades;
* Fluxos de comunicação.
O risco psicossocial raramente surge de forma isolada. Normalmente ele nasce da interação entre pessoas com seus fatores humanos complexos e subjetivos, processos e ambiente organizacional.
Etapa 3 – Análise da Organização do Trabalho
Esta é uma das etapas mais importantes, pois já apresentam fatores de riscos psicossociais.
Devem ser analisados fatores como:
* Sobrecarga de trabalho;
* Metas inatingíveis;
* Procedimentos obscuros;
* Orientações conturbadas;
* Pressão por resultados;
* Ritmos excessivos;
* Falta de autonomia;
* Falhas de comunicação;
* Conflitos hierárquicos;
* Insegurança profissional;
* Ausência de reconhecimento.
É nesse momento que começam a surgir os fatores que podem impactar diretamente a saúde mental dos trabalhadores.
Etapa 4 – Levantamento dos Perigos/Fatores Psicossociais
Com base na análise anterior, realiza-se a identificação dos perigos/fatores psicossociais presentes.
O levantamento deve utilizar:
* Técnicas cientificamente validadas;
* Entrevistas estruturadas;
* Grupos focais;
* Escuta ativa;
* Questionários validados;
* Análise documental;
* Indicadores organizacionais.
A participação dos trabalhadores é indispensável para que o processo represente a realidade do ambiente de trabalho.
Etapa 5 – Identificação e Avaliação dos Riscos Psicossociais
Após identificar os fatores, avaliam-se os riscos decorrentes deles.
Exemplo:
– Sobrecarga de trabalho (Estresse crônico);
– Metas inalcançáveis (Burnout);
– Liderança abusiva (Sofrimento psíquico);
– Falta de autonomia (Desengajamento);
– Comunicação inadequada (Conflitos interpessoais);
– Entre outros.
Já olhando para a:
* Probabilidade;
* Severidade (potenciais consequências para a saúde física e mental).
Etapa 6 – Classificação e Gradação dos Riscos
Os riscos devem ser classificados por meio de metodologias cientificamente validadas.
Exemplo:
* Matriz de Riscos 3×3, 5×5, etc.
A classificação considera:
Severidade × Probabilidade
Permitindo enquadrar os riscos em níveis, como por exemplo:
* Baixo;
* Médio;
* Alto;
* Crítico.
Essa gradação é essencial para priorizar ações preventivas de controle.
Etapa 7 – Definição das Medidas Preventivas de Controle
Uma vez classificados os riscos, devem ser definidas medidas preventivas de controle pra cada nível classificado, considerando a hierarquia de controle.
O foco principal não deve ser oferecer suporte psicológico ao trabalhador e sim avaliar o ambiente, as condições e organização do trabalho de forma adotar medidas de gerenciamento (eliminação, substituição, mitigação e controle dos riscos).
É necessário atuar nas causas organizacionais.
Exemplos:
* Adequação de metas;
* Procedimentos claros e objetivos;
* Revisão da carga de trabalho;
* Liderança humanizada;
* Desenvolvimento de lideranças;
* Melhoria da comunicação (claras);
* Revisão de jornadas;
* Ampliação da autonomia;
* Observar aspectos cognitivos às demandas específicas;
* Programas de acolhimento e reconhecimento.
O objetivo é evitar, eliminar, mitigar ou reduzir os fatores geradores do risco psicossociais.
Etapa 8 – Inventário de Riscos e Plano de Ação
Todos os resultados devem compor:
“Inventário de Riscos”
Contendo no mínimo:
* Setores/áreas avaliadas
* Grupo de Trabalhadores envolvidos
* Processos operacionais produtivos
* Organização de Trabalho
* Perigos/Fatores psicossociais levantado;
* Riscos psicossociais identificados;
* Classificação/gradação dos níveis riscos;
* Definição das preventivas de controle para cada nível de risco classificado
“Plano de Ação”
Para implementação das Medidas Preventivas de Controle – podendo utilizar o método 5W2H
Contendo no mínimo:
* Dados do Inventário de Riscos
* Medidas preventivas de controle ;
* Responsáveis;
* Prazos;
* Indicadores;
* Critérios de monitoramento.
Integração – GRO > PGR
Todo esse processo representa o GRO que deve integrar ao PGR – Programa de Gerenciamento de Riscos o qual deverá conter no mínimo o Inventário de Riscos e o Plano de Ação.
O PGR não pode ser um documento estático.
Deve ser:
* Dinâmico;
* Atualizado;
* Monitorado continuamente;
* Reavaliado sempre que houver mudanças organizacionais, a dada dois anos ou a cada três anos se a Empresa tiver Sistema de Gestão de SST implantado e em plena operação.
Por que a Ciência da Psicologia é imprescindível nesse processo?
Embora a avaliação esteja voltada para os fatores presentes no ambiente e na organização do trabalho, não é possível dissociar esses fatores das pessoas que vivenciam diariamente essas experiências.
Os fatores psicossociais envolvem aspectos complexos como:
* Percepções;
* Emoções;
* Cognições;
* Relações interpessoais;
* Dinâmicas grupais;
* Processos subjetivos.
Por essa razão, a participação dos profissionais da Psicologia torna-se fundamental.
Os Psicólogos possuem formação científica específica para compreender:
* Comportamento humano;
* Processos emocionais;
* Relações de trabalho;
* Saúde mental;
* Aspecto cognitivos;
* Fatores psicossociais.
Assim, a avaliação dos fatores de riscos psicossociais deve ser conduzida e deliberada pelos Psicólogos, atuando de forma integrada com uma Equipe Multidissiplinar, composta por profissionais de SST, ergonomia, medicina, gestão e demais especialistas envolvidos.
Não se trata de avaliar indivíduos, mas de compreender como a organização do trabalho impacta as pessoas e como esses impactos podem ser prevenidos.
Benefícios para as organizações
Quando realizado adequadamente, esse processo contribui para:
- Redução do adoecimento mental;
- Redução do absenteísmo;
- Redução do presenteísmo;
- Redução de acidentes e incidentes;
- Aumento do engajamento;
- Aumento da produtividade sustentável e assim a lucratividade;
- Fortalecimento da cultura prevencionista e imagem da empresa no mercado;
- Maior sentimento de pertencimento;
- Melhor clima organizacional;
- Conformidade com NR 01 e NR 17 (Segurança jurídica e empresarial)
- Redução do risco de notificações e autuações durante fiscalizações do Ministério do Trabalho.
Conclusão
O fluxograma apresentado representa muito mais do que uma sequência de etapas. Ele traduz um caminho técnico, ético e preventivo para o gerenciamento dos riscos psicossociais.
Ao colocar a AEP como ponto de partida, compreender a organização do trabalho, utilizar metodologias cientificamente validadas, promover a participação dos trabalhadores e assegurar a liderança técnica dos profissionais da Psicologia, as organizações passam a atuar na origem dos problemas e não apenas em suas consequências.
Esse é o caminho para reduzir o crescente número de afastamentos por adoecimento mental, contribuir para a redução de acidentes do trabalho, fortalecer a conformidade legal perante a NR 01 e a NR 17 e construir ambientes onde as pessoas se sintam acolhidas, pertencentes e valorizadas.
Mais do que atender à legislação, trata-se de proteger Pessoas.
Porque ambientes de trabalho saudáveis e seguros não são resultado do acaso. São resultado de gestão, prevenção e do compromisso genuíno com a VIDA.

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