Gerenciamento de riscos ocupacionais: a relação entre comportamento humano e medidas de controle

“Quando somente um erro humano é capaz de gerar um acidente de trabalho, derrubando todo o seu Gerenciamento de Riscos, então sua estrutura de gestão é falha e se assemelha a um castelo de cartas.”
Wesley Silva (2023)

Gerenciamento de Riscos Ocupacionais é o processo de identificar, analisar, avaliar e controlar os riscos que podem afetar as atividades realizadas por um trabalhador. Também envolve prevenir ou eliminar os riscos capazes de gerar um dano a saúde ou a integridade durante o processo laboral.

O gerenciamento de riscos é algo essencial para as organizações, pois ajuda a identificar, avaliar os riscos que podem afetar os processos e a tomar medidas para preveni-los ou minimizá-los. Ele fornece uma análise precisa sobre os riscos de uma operação ou atividade e a partir disso é possível desenhar as melhores, ferramentas e métodos para agir no controle destes riscos, de modo a diminuir seu impacto imediato ou futuro. Além disso, um bom gerenciamento de riscos facilita a tomada de decisão, tornando-a mais eficaz e também no uso adequado de recursos, matérias, humanos e financeiros.

A gestão de risco também é importante para aumentara segurança das operações e evitar danos materiais e financeiros a organização. Uma operação sem acidentes recorrentes, que saiba controlar os próprios riscos e propor medidas de controle em um processo de antecipação, tende a sofrer menos com paradas operacionais, com danos a equipamentos e máquinas.

Existem várias etapas no processo de gerenciamento de riscos, como identificação dos riscos, análise dos riscos, avaliação dos riscos e tratamento dos riscos.

Qual a relação do Comportamento Humano e o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais?

O comportamento humano é um fator muito importante a ser considerado na gestão de riscos. Segundo a norma internacional da ISO 31000, o comportamento humano e a cultura influenciam significativamente todos os aspectos da gestão de riscos em cada nível e estágio. A avaliação de riscos deve identificar onde a falha humana pode ocorrer em tarefas críticas de segurança, possibilitando tomar as medidas de controle adequadas para evitá-los.

Embora o fator humano seja um fator importante a ser considerado no gerenciamento de riscos, ele não deve ser o único fator e nem o pilar de sustentação. O gerenciamento de riscos deve ser uma abordagem holística que leva em consideração todos os aspectos do negócio e do ambiente em que ele opera.

Desta forma é preciso destacar que as medidas de controle dos riscos não devem ter como foco principal, ações como treinamentos e elaboração de procedimentos de segurança.

Já ouvi de muitos gestores, frases como:

“Isso não podemos controlar, porque depende do operador!”.

 “Neste ponto já não podemos atuar, pois é comportamentos humano.”.

 “O trabalhador, foi treinado!”.

Será que isso não seria somente uma desculpa para não realizar investimentos e melhorias na segurança da operação?

Nestes casos, será que nosso Gerenciamento de Riscos não se assemelha a um castelo de cartas?

A expressão “castelo de cartas” é usada para se referir a algo que não tem solidez e pode ruir a qualquer momento. A expressão é usada para descrever algo que é frágil e pode ser facilmente destruído ou desfeito. Por exemplo, um projeto que foi construído sem uma base sólida ou uma estrutura que foi construída sem os materiais adequados pode ser descrito como um castelo de cartas.

Imagine que nossa principal medida de controle para um risco, é o treinamento de um trabalhador e o uso de um EPI – (Equipamento de Proteção Individual). Então, basta o trabalhador esquecer de cumprir um item do treinamento ou deixar de usar um EPI que ele irá sofrer um acidente.

Isso não me parece um bom Gerenciamento de Riscos.

Mas o que fazer para ter um Gerenciamento de Riscos bem estruturado?

Claro que não existe uma solução simples ou uma receita pronta aplicável a todas as organizações. Porém, posso trazer aqui alguns pontos que precisam ser considerados:

1º Ponto

Um Gerenciamento de Riscos precisa ser sustentado pelos seguintes princípios:

  • Proteger e criar valor para as organizações;
  • Ser parte integrante de todos os processos organizacionais;
  • Ser considerada no processo de tomada de decisão;
  • Abordar explicitamente à incerteza;
  • Ser sistemática, estruturada e oportuna;
  • Basear-se nas melhores informações disponíveis;
  • Estar alinhada com os contextos internos e externos da organização e com o perfil do risco;
  • Ser estruturado com envolvimento de todos os níveis operacionais envolvidos;
  • Buscar de forma objetiva a eliminação, redução e controles dos riscos através da observância das normas aplicáveis ao negócio.

2º Ponto

Garantir que as etapas a seguir sejam seguidas na construção do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais:

  1. Identificar os perigos;
  2. Analisar a probabilidade e a severidade de cada risco;
  3. Classificar cada riscos conforme critérios definidos pela organização;
  4. Priorizar o risco conforme a sua classificação;
  5. Tratar (ou responder) às condições de risco, aplicando medidas de controle eficazes;
  6. Monitorar os resultados e utilizar os dados para ajustar conforme necessário

3º Ponto

A hierarquia das medidas de controle precisa ser observada.

A hierarquia das medidas de controle é um processo que identifica qual ordem deve ser seguida para definição de um determinado controle de risco. Essa classificação é feita para identificar, selecionar, classificar e implementar as medidas de controle de acordo com a sua capacidade intrínseca de mitigar (reduzir) o risco. A hierarquia das medidas de controle dos riscos ocupacionais é muitas vezes ignorada pelos profissionais que fazem a Gestão de Riscos. Porém, é preciso lembrar que ela é parte fundamental dos princípios de Segurança do Trabalho e tem previsão legal e, como tal, deve ser obedecida.

A hierarquia das medidas de controle é organizada em uma pirâmide denominada “Hierarquia de Controle de Riscos”, levando-se em consideração a capacidade de mitigar riscos, assim:

  1. Medidas de Eliminação;
  2. Medidas de Substituição;
  3. Medidas de Controle;
  4. Medidas Administrativas
  5. Medidas de Sinalização;
  6. Medidas de Proteção Individual;
  7. Medidas de Monitoramento.

As medidas de eliminação são a primeira etapa da hierarquia das medidas de controle e consistem em eliminar a condição perigosa (fonte do Risco). Por exemplo, substituir a movimentação manual de carga por movimentação mecânica. A eliminação é a melhor ação feita para controlar um risco identificado.

Segundo a NR -01, cabe ao empregador, implementar medidas de prevenção, ouvidos os trabalhadores, de acordo com a seguinte ordem de prioridade:

  1. eliminação dos fatores de risco;
  2. minimização e controle dos fatores de risco, com a adoção de medidas de proteção coletiva; I
  3. minimização e controle dos fatores de risco, com a adoção de medidas administrativas ou de organização do trabalho; e
  4. adoção de medidas de proteção individual.

4 º Ponto

Como dito anteriormente, o GRO não deve ter com sua principal base, a dependência do comportamento humano, porém a gestão do erro humano deve ser proativa e estruturada em todo o processo de gerenciamento de risco.

Alguns pontos que devem ser considerados com relação ao erro humano no gerenciamento de riscos são:

  • A gestão do erro humano deve ser proativa e estruturada em todo o processo de gerenciamento de riscos;
  • Reduzir as chances de erros humanos com projetos bem feitos e/ou com uso de tecnologia e engenharia visando mitigar riscos de falhas e/ou reduzir a severidade de seus efeitos;
  • Reduzir erros devido à falta de conhecimento fazendo um Risk Assessment e identificando que informações e conhecimento relativo à segurança são necessários para cada função na organização.
  • As medidas de engenharia devem ser consideradas na redução de erros humanos.

Algumas dessas medidas de engenharia são:

  • Projetar o local de trabalho e o equipamento deforma acomodar as limitações do desempenho humano;
  • Adicionar prevenção de erros em seus métodos de trabalho;
  • Tornar as coisas visíveis e fáceis de entender;
  • Simplificar os processos;
  • Instalar dispositivos de monitoramento, observando o conceito de falha segura;
  • Ter um manual de procedimentos claro e acessível;
  • Todos os procedimentos e regras devem estar descritos em um documento de forma clara e acessível a todos.

É importante lembrar que não se trata de um processo fácil, mas de um processo necessário e que precisa ser revisado e melhorado constantemente.

Como leitura complementar a este texto, recomendo acessar o texto sobre falhas humanas e investigação de acidentes de trabalho.

Os artigos reproduzidos neste blog refletem única e exclusivamente a opinião e análise de seus autores. Não se trata de conteúdo produzido pela RSData, não representando, desta forma, a opinião legal da empresa.

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