Ética na Segurança: quando os indicadores escondem a realidade

Segundo Adilson Monteiro, no artigo “A Ética Melancia e a Segurança”, os valores de uma empresa são realmente colocados à prova quando entram em conflito com metas, custos e resultados. Na Segurança do Trabalho, essa tensão pode aparecer em indicadores aparentemente positivos, desvios normalizados e decisões que afastam a prevenção da estratégia.
Quando números são protegidos enquanto problemas reais permanecem sem tratamento, a organização cria uma falsa percepção de segurança. Superar esse cenário exige mais do que códigos de conduta e treinamentos: requer liderança, segurança psicológica e coerência entre discurso e prática. É assim que a ética deixa de ser apenas institucional e passa a fortalecer uma cultura real de prevenção.

A Ética Melancia e a Segurança

Por: Adilson Monteiro

A Ética costuma ser amplamente defendida enquanto não entra em conflito com metas, bônus, crescimento ou reconhecimento.

Na maioria das grandes empresas investem muito tempo e recursos na construção de códigos de conduta, treinamentos obrigatórios e campanhas internas sobre integridade na conduta de seus trabalhadores(as), o que é necessário para sua sustentabilidade. Contudo, quando um ganho significativo ou até uma saída de crise, especialmente a financeira, a ética é colocada em teste de validação.

Assim, a ética deixa de ser um discurso institucional e passa a ser uma escolha seletiva. Esses desvios costumam surgir por meio da racionalização prática. Alguém argumenta que a situação é excepcional e os riscos são relativos, não pela ciência da Segurança, mas sim, como um viés de confirmação para adotar soluções que atendam o imediato das necessidades do líder, setor ou até do Negócio.

Essa degradação da Ética aplicada na Segurança não acontece de um momento para outro; existem sinais de que está se desenrolando ao longo do tempo, tais como:

  • “Indicadores Melancia”, ou seja, existe uma pressão para não reportar acidentes reportáveis e até um esforço enorme da liderança para classificá-los como “troca de atividade” (não altera taxas de acidentes com afastamento), deixando assim estas taxas “verdes”, mas na realidade são “vermelhas” na urgência do tratamento, infelizmente, não tratadas seriamente;
  • Descumprimento de procedimentos como desvio normalizado, ou seja, todos sabem que uma prática está fora do procedimento e gera riscos já foram tratados no procedimento, mas fatores como custo, prazo, desconhecimento etc. normalizam esta prática como tácita por todos, inclusive com anuência do time da Segurança, ao limite de quando acidente aconteça;
  • Segurança tratada como burocracia, ou seja, a equipe de Segurança é apartada das decisões da liderança por entendimento da liderança que ela prejudica produtividade, lucratividade e agilidade da empresa e assim relega seu trabalho somente à aplicabilidade da normas legais estritas sem análise de contexto ou dos riscos amplos;

Não é somente com treinamentos ou campanhas sobre Ética para que esta situação se transforme: é necessário que a alta liderança “entre em campo” com fala e ações que demonstrem que os valores da empresa estão vivos. No caso da Segurança, o questionamento de indicadores em relação ao que é visto na operação, segurança psicológica para ouvir trabalhadores(as) sobre sua opinião sobre a Segurança, exemplos práticos e visíveis de ações a favor da prevenção independentemente dos resultados imediatos que a degradam, entre outras ações, são que criam credibilidade e por conseguinte mudança da cultura empresarial a favor da prevenção. 

Os artigos reproduzidos neste blog refletem única e exclusivamente a opinião e análise de seus autores. Não se trata de conteúdo produzido pela RSData, não representando, desta forma, a opinião legal da empresa.

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