A segurança no trabalho vai muito além do uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Em sua segunda coluna sobre segurança na construção civil, o engenheiro Sérgio Ussan destaca a importância de uma recepção bem planejada para os trabalhadores antes mesmo de iniciarem suas atividades no canteiro de obras.
Com um olhar atento aos detalhes, Ussan aborda desde o conhecimento detalhado do projeto e a elaboração de um programa de segurança até a infraestrutura adequada das áreas de vivência e a documentação necessária. Ele ressalta ainda a importância de uma integração eficaz, incluindo palestras e visitas ao local, para garantir que os trabalhadores se sintam valorizados e bem preparados.
Portanto, esta abordagem inicial não só promove um ambiente de trabalho mais seguro e organizado, mas também fortalece a comunicação e a parceria entre os profissionais da produção e da segurança.
Se você ainda não leu a primeira coluna de Sérgio Ussan, sobre Segurança na Construção Civil, recomendamos sua leitura: Segurança Na Construção Civil – Abordagem Inicial
A Recepção do Trabalhador na Construção Cívil
O leitor pode estranhar o título acima e ficar intrigado com a relação entre a recepção do trabalhador e a segurança, saúde e meio ambiente do trabalho. Esclareço.
Normalmente, quando pensamos em segurança do trabalho, vem à nossa mente, em primeiro lugar, o uso de EPIs. No entanto, a segurança do trabalhador, em seu sentido amplo, começa bem antes do trabalhador iniciar suas atividades profissionais, especificamente no canteiro de uma obra de construção civil.
A pergunta que pode surgir agora é: “O quanto antes?” A resposta vem a seguir, com a apresentação de ações que precedem a atividade do trabalhador na construção e que os profissionais prevencionistas ligados ao empreendimento devem dar especial atenção.
Conhecimento do Projeto
O profissional responsável pela segurança dos trabalhadores na futura construção do empreendimento deve conhecer as características específicas do projeto, tais como:
- Localização.
- Finalidade.
- Número de pavimentos.
- Situações merecedoras de atenção especial.
- Número de trabalhadores nas diversas fases da obra.
- Outros aspectos que o leitor pode acrescentar.
Programa de Segurança
Elaboração prévia de um Plano de Segurança do Trabalho a ser usado antes e durante o andamento da obra, independentemente do nome específico atribuído a ele.
Áreas de Vivência
Este é um item que, na realidade, não recebe a devida atenção e consideração que o trabalhador merece. Ele tem direito a instalações normatizadas em sua estrutura, dimensões e complementos, como vestiário, sanitário, chuveiros, refeitório e área de descanso.
Em obras de menor porte ou com espaço exíguo, é comum encontrar no mesmo local almoxarifado/vestiário, escritório/depósito de materiais e outras situações similares, o que não é permitido pela normatização vigente.
Além disso, um trabalhador com boa infraestrutura à sua disposição certamente terá produtividade aumentada e maior ânimo para o trabalho.
Documentação
Para iniciar suas atividades na obra para a qual foi contratado, o trabalhador deve ter sua documentação já registrada no arquivo, digital ou manual, da mesma. Alerta: o responsável por uma obra que permite o acesso de um trabalhador sem a documentação legal correta está se expondo a sérios riscos em caso de acidentes. Não vale arriscar com a desculpa de “falta só um documento”. O elenco mínimo de documentos está adiante no texto.
Chegada do Trabalhador à Obra
O trabalhador, em seu primeiro contato com o futuro local de trabalho, sabe para quais atividades foi contratado, mas desconhece onde e como isso ocorrerá. Em virtude disso, é importante uma apresentação parcial ou total do cenário futuro que ele integrará e, muito importante, os procedimentos de segurança a serem seguidos.
Palestra de Integração
Antes de iniciar suas atividades profissionais, o trabalhador deverá assistir a uma palestra ministrada por um Técnico de Segurança do Trabalho. Esta palestra deve abordar as características gerais da obra, procedimentos e normas a serem seguidas, apresentação das lideranças e comando, informações sobre as áreas de vivência e outros pontos importantes. Sugestão de pauta para esta integração está mais adiante no texto.
Visita à Obra
Complementando a integração, é ideal levar o trabalhador a conhecer seus futuros locais de trabalho e as características físicas do empreendimento. Este item visa evitar o fato de “apenas largar” o trabalhador no canteiro, desconsiderando que sua integração é uma atitude com benefícios futuros.
Objetivo Pretendido
Passando por estas etapas, o trabalhador saberá que está acessando um local de trabalho organizado, com normas antecipadas a serem seguidas, o que o levará a sentir-se considerado como parceiro.
Observação Relevante
Ao ser recebido pelo Técnico de Segurança do Trabalho e tratado com gentileza e urbanidade, o trabalhador verá no TST um profissional que está ali para orientá-lo e protegê-lo, e não simplesmente para fiscalizá-lo e puni-lo. Esta relação inicial favorecerá futuros diálogos e parcerias entre os profissionais da produção e os de segurança do trabalho.
As situações até aqui expostas ocorrem antes do trabalhador iniciar suas atividades no canteiro. Portanto, se forem exitosas, abrem um canal de comunicação entre a equipe de segurança e os trabalhadores, promovendo um bom clima nas relações profissionais no canteiro. Assim, este é o objetivo do título deste texto, que será complementado em artigos posteriores.
Complementos essenciais para a Segurança na Construção
Documentação Mínima para Acesso à Obra
- Ficha de registro ou similar.
- Cópia ou via digital da carteira profissional.
- ASO (Atenção ao “apto para trabalho em altura”).
- Ficha de recebimento de EPIs.
- Certificado de Treinamento Admissional.
- Análise de riscos das atividades a serem exercidas.
- Dependendo da atividade, certificados ligados às NRs 12, 35 e 10.
Itens Sugeridos para Abordagem na Palestra de Integração
Obs: Não necessariamente nesta ordem.
- Apresentação da empresa.
- Apresentação e objetivo da equipe de segurança.
- Convivência cordial com companheiros.
- Apresentação das áreas de vivência.
- Higiene das áreas de vivência.
- Principais riscos inerentes às funções.
- EPIs e EPCs.
- Perigo de uso de adereços.
- Proibição de álcool e drogas.
- Proibição de fones de ouvido, exceto em comunicação interna.
- Cuidados com trabalhos em altura e eletricidade.
- Correção das vestimentas de trabalho fornecidas pela empresa.
- Presença nos Diálogos de Segurança.
- Uso das Caixas de Sugestões, quando houver.
- Direito de recusa do trabalhador em exercer atividades sem segurança.
Este elenco de temas será alterado conforme as características específicas da obra.
Segurança na Construção: Ambiente de Trabalho no Canteiro
O ambiente a ser implantado no canteiro deve visar características de responsabilidade, cortesia e liberdade de manifestação educada. O Técnico de Segurança que atua junto aos trabalhadores pode, e deve, buscar esse ambiente.
A questão é: como o TST consegue êxito neste objetivo? Certamente dominando o sugerido e especificado nesta e em colunas anteriores, acrescido de ações desenvolvidas no cotidiano da obra. Este último processo abordarei na próxima coluna.
O leitor deve ter notado que as abordagens até aqui feitas nos artigos desta coluna ainda não colocaram o trabalhador no seu local de trabalho. Esta é a intenção: salientar a importância da segurança do trabalho antes e durante a recepção do trabalhador.
Como sempre, o contraditório será bem-vindo.

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