A exposição ocupacional a hidrocarbonetos é uma das causas mais comuns de insalubridade química nas empresas brasileiras.
Esses compostos – presentes em combustíveis, solventes, graxas, óleos e tintas — podem causar doenças hepáticas, neurológicas e até câncer, dependendo do tipo e do tempo de exposição.
Por isso, avaliar corretamente essa exposição é obrigatório por lei e essencial para garantir segurança, saúde e conformidade com as Normas Regulamentadoras (NRs).
O que são Hidrocarbonetos?
Os hidrocarbonetos são compostos formados apenas por carbono (C) e hidrogênio (H).
Eles constituem a base dos derivados de petróleo e estão presentes em inúmeros produtos industriais.
Exemplos comuns:
- Gasolina, diesel, querosene, thinner, solventes industriais;
- Óleos minerais, graxas e lubrificantes;
- Vapores de combustíveis em postos de abastecimento;
- Resinas, colas e tintas automotivas.
Esses compostos são altamente voláteis, tóxicos e inflamáveis, exigindo controle rigoroso de exposição ocupacional.
Base Legal da Avaliação
A avaliação de exposição a hidrocarbonetos é amparada por várias normas do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE):
| Norma | Conteúdo principal |
| NR 6 | Determina o fornecimento e controle de EPIs adequados. |
| NR 7 | Obriga o PCMSO a monitorar a saúde dos trabalhadores expostos. |
| NR 9 | Define os critérios de avaliação e controle de agentes químicos no PGR (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais). |
| NR 15 – Anexo 11 | Estabelece limites de tolerância para substâncias químicas quantificáveis. |
| NR 15 – Anexo 13 | Reconhece a insalubridade qualitativa pela exposição habitual a hidrocarbonetos e compostos de carbono. |
Resumo jurídico:
A empresa deve identificar, medir e controlar a exposição a hidrocarbonetos sempre que houver manipulação, contato ou inalação habitual dessas substâncias.
Etapas para Avaliar a Exposição a Hidrocarbonetos
1. Identificação das Fontes de Exposição
O primeiro passo é mapear onde e como ocorre o contato com hidrocarbonetos:
- Processos de limpeza e desengraxe com solventes;
- Abastecimento e descarregamento de combustíveis;
- Pinturas, vernizes e colas;
- Manutenção de máquinas e motores;
- Armazenamento e transporte de produtos inflamáveis.
Dica: registre cada atividade no Inventário de Riscos do PGR, conforme a NR 1.
2. Avaliação Qualitativa – NR 15, Anexo 13
O Anexo 13 da NR 15 estabelece que a insalubridade por hidrocarbonetos é caracterizada pela simples exposição habitual, independentemente de medição quantitativa.
Ou seja:
Se há contato frequente com gasolina, diesel, graxa, óleo ou solvente, o risco já é considerado insalubre em grau médio (20%).
Exemplo de exposição qualitativa:
- Mecânico que limpa peças com óleo diesel ou thinner;
- Frentista que inala vapores de gasolina;
- Pintor automotivo exposto a solventes aromáticos.
3. Avaliação Quantitativa – NR 15, Anexo 11
Para hidrocarbonetos voláteis e gasosos (como benzeno, tolueno e xileno), aplica-se também o Anexo 11, que exige medições ambientais.
Procedimentos técnicos:
- Amostragem de ar por bomba de vácuo e tubos adsorventes específicos (ex: carvão ativado);
- Análise laboratorial por cromatografia gasosa;
- Comparação com os limites de tolerância (LTs) em ppm ou mg/m³;
- Cálculo da média ponderada (TWA) e comparação com o valor teto (“T”).
Exemplo de limite legal:
- Tolueno → 290 mg/m³ (78 ppm)
- Xileno → 340 mg/m³ (78 ppm)
(Fonte: NR 15, Anexo 11)
4. Avaliação Médica Ocupacional (PCMSO)
O médico do trabalho deve realizar exames clínicos e laboratoriais específicos, como:
- Hemograma completo;
- Enzimas hepáticas (TGO, TGP, GGT);
- Urina tipo I e exame de função pulmonar;
- Avaliação de sintomas neurológicos e dermatológicos.
Periodicidade mínima:
- Admissional, periódico e demissional;
- A cada 6 ou 12 meses para funções com exposição contínua.
5. Controle e Neutralização da Exposição
A eliminação da insalubridade só ocorre com comprovação técnica de que a exposição foi controlada.
Isso pode ser feito com:
Medidas de Engenharia
- Instalação de exaustores e ventilação local exaustora (VLE);
- Substituição por produtos menos tóxicos;
- Isolamento de áreas de manipulação;
- Monitoramento contínuo de vapores inflamáveis.
Medidas Administrativas
- Treinamentos (NR 1 e NR 9);
- Limitação do tempo de exposição;
- Sinalização de áreas de risco.
Equipamentos de Proteção Individual (EPI)
- Respiradores com filtro químico (carvão ativado);
- Luvas nitrílicas ou neoprene;
- Aventais e óculos de proteção.
Registro obrigatório: Ficha de EPI assinada + CA válido (Certificado de Aprovação).
6. Emissão de Laudo Técnico e LTCAT
A avaliação deve resultar em um Laudo Técnico de Insalubridade ou LTCAT, elaborado por engenheiro de segurança ou médico do trabalho habilitado.
Esse documento:
- Define o grau de insalubridade (médio ou máximo);
- Comprova as medidas de controle adotadas;
- É utilizado para adicionais trabalhistas e INSS.
Exemplo prático: Oficina mecânica
| Situação | Agente químico | Tipo de exposição | Grau de insalubridade |
| Mecânico limpa peças com diesel e graxa | Hidrocarbonetos alifáticos | Contato cutâneo e inalação | Médio (20%) |
| Pintor automotivo usa thinner | Hidrocarbonetos aromáticos (tolueno/xileno) | Inalação de vapores | Médio (20%) |
| Frentista abastece veículos | Vapores de gasolina (benzeno) | Inalação direta | Máximo (40%) |
| Operador de tanque em refinaria | Benzeno e solventes pesados | Exposição constante | Máximo (40%) |
Erros comuns na avaliação de hidrocarbonetos
- Considerar apenas a inalação e ignorar o contato dérmico.
- Acreditar que o uso de EPI elimina o risco sem comprovação técnica.
- Não atualizar o PGR após alterações no processo produtivo.
- Usar produtos substitutos sem verificar sua toxicidade real.


