Atualizado em 26/08/2026
A CID-11, que estava programada para entrar em vigor em janeiro de 2025, foi adiada para janeiro de 2027 no Brasil. A decisão está formalizada na Nota Técnica Nº 91/2024-CGIAE/DAENT/SVSA/MS, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, e reflete a necessidade de mais tempo para lidar com os desafios complexos da implementação: a tradução de um conjunto estruturado de cerca de 80.000 conceitos da classificação, a adaptação dos sistemas de informação em saúde e a preparação dos profissionais que vão usar a nova codificação no dia a dia, incluindo médicos do trabalho e equipes responsáveis pela Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), que depende diretamente da codificação CID para registrar afastamentos e doenças ocupacionais. O adiamento visa garantir que a transição ocorra de forma gradual, preservando a integridade das séries históricas de dados e assegurando que o sistema de saúde brasileiro esteja de fato preparado para adotar as inovações trazidas pela CID-11. Confira abaixo as perguntas e respostas sobre a implementação da CID-11 no Brasil.
Introdução: O Que Está por Trás do Adiamento da CID-11 no Brasil?
A transição para a CID-11 envolve adaptações complexas que vão além da simples troca de códigos médicos. Vamos entender os detalhes técnicos dessa mudança e como o setor de saúde e segurança do trabalho deve se preparar para 2027.
O que é a CID-11 e por que ela é importante?
A CID-11 é a 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS), adotada pela OMS a partir de janeiro de 2022 e projetada para ser totalmente digital e acessível online. Ela é crucial porque atualiza e melhora a forma como doenças, sintomas e causas de morte são categorizados globalmente, o que facilita a comunicação internacional e a comparação de dados de saúde.
A mudança é significativa em escala: o sistema, criado em 1893 e atualizado periodicamente desde então, passa da CID-10, com cerca de 14.400 códigos segundo o CFM, para a CID-11. O comunicado original da OMS, em 2018, mencionava cerca de 55 mil códigos únicos, número que segue sendo repetido pela imprensa médica brasileira, incluindo o CFM. A ficha técnica mais atual da OMS, no entanto, fala em 17 mil categorias diagnósticas com mais de 100 mil termos de índice associados. Para ter uma referência concreta e verificável, fizemos nosso próprio levantamento a partir da tradução oficial em português da CID-11 e chegamos a 35.664 categorias, distribuídas em 28 capítulos, o número que usamos como referência neste artigo. Entre as novidades de conteúdo estão novos capítulos sobre saúde sexual, a inclusão do gaming disorder (transtorno relacionado a jogos), a síndrome de burnout como fenômeno ocupacional (reconhecida oficialmente como doença ocupacional pela CID desde 2022 e um dos temas centrais dos riscos psicossociais previstos na NR-1), uma revisão dos critérios para estresse pós-traumático e novas classificações para resistência antimicrobiana.
Por que a implementação da CID-11 no Brasil foi adiada para 2027?
Segundo a Nota Técnica Nº 91/2024-CGIAE/DAENT/SVSA/MS, duas razões técnicas sustentam oficialmente o novo prazo:
- Adaptação dos sistemas de informação: a nova classificação não muda só a codificação das doenças em si: ela também afeta a estrutura de processamento dos sistemas de informação e das ferramentas de suporte, que precisam se adaptar às inovações da nova revisão.
- Regra da OMS de transição da CID-10: a OMS orienta que, antes de adotar uma nova CID, a última versão da anterior tenha sido atualizada por pelo menos dois anos. O Brasil só conclui a atualização final da CID-10 no fim de 2025, o que empurra a adoção da CID-11 para depois desse marco.
Além dessas duas razões formais, o processo também envolve, na prática, a complexidade da tradução (mais de 80.000 conceitos, feita em parceria com universidades, especialistas médicos e outros países de língua portuguesa) e a preservação da integridade dos dados históricos de saúde, para que as séries de indicadores epidemiológicos continuem comparáveis ao longo da transição.
Vale um esclarecimento: a capacitação de médicos e codificadores é uma etapa necessária e esperada desse processo, mas não é apontada na Nota Técnica como um dos motivos formais do adiamento. Os dois motivos citados oficialmente são os dois primeiros listados acima.
Como o Brasil está se preparando para essa transição?
O Brasil tem trabalhado em várias frentes para preparar a implementação da CID-11:
- Tradução e Revisão: a versão em português da CID-11 foi construída num processo coordenado pelo Centro Colaborador da OMS no Brasil, com participação de outros países lusófonos, para garantir que a tradução reflita com precisão os conceitos originais.
- Capacitação: programas de treinamento estão sendo desenvolvidos para médicos, codificadores e outros profissionais da saúde, para assegurar o uso correto da nova classificação quando ela entrar em vigor.
- Atualização Tecnológica: os sistemas de informação em saúde estão sendo ajustados para integrar a nova classificação, garantindo processamento de dados preciso e sem perda de continuidade histórica.
Quais são os desafios e benefícios esperados com a CID-11?
Alguns dos principais desafios incluem a complexidade da tradução e adaptação de cerca de 80.000 conceitos ao português, a necessidade de treinar um grande número de profissionais em todo o país, a manutenção da integridade dos dados históricos de saúde ao adotar a nova classificação, e a atualização dos sistemas de informação para suportar a CID-11 em escala nacional.
Em troca desse esforço, a CID-11 deve trazer maior precisão e flexibilidade na codificação de doenças, integração mais eficaz com sistemas eletrônicos de saúde, e atualizações mais frequentes e ágeis, que acompanham melhor os avanços da medicina, incluindo áreas que a CID-10 cobria de forma limitada, como saúde mental ocupacional (burnout) e saúde digital (gaming disorder).
Onde posso acessar a versão em português da CID-11?
A versão em português da CID-11 está disponível no site da OMS, no endereço icd.who.int/browse/2024-01/mms/pt.
Quando a CID-11 entrará em vigor no Brasil?
- 2025 a 2026: uso da CID-10, versão 2019 (última atualização antes da transição).
- Janeiro de 2027: início do uso da CID-11 nos sistemas de vigilância em saúde, com integração plena prevista para 2027 e 2028.
Conclusão: Preparação é a Chave para o Sucesso
O adiamento da CID-11 para 2027 é uma oportunidade para o Brasil se preparar de forma adequada, garantindo que sistemas estejam prontos e que os profissionais de saúde sejam devidamente treinados. Até a data desta atualização (agosto de 2026), não há indicação pública de mudança nesse cronograma. O prazo de janeiro de 2027 segue sendo a referência oficial. Esta abordagem cuidadosa assegura que a transição seja benéfica tanto para o sistema de saúde quanto para os pacientes.
Para empresas e equipes de SST, essa transição também é um bom momento para revisar como CIDs são registrados hoje em atestados, afastamentos e CATs, e garantir que os processos e sistemas usados, como o software de Medicina do Trabalho da RSData, já estejam preparados para acompanhar as mudanças.
Fontes:
- Nota Técnica Nº 91/2024-CGIAE/DAENT/SVSA/MS, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Ministério da Saúde.
- Ministério da Saúde atualiza cronograma para uso da CID 11 no Brasil, Portal Médico (CFM).
- Organização Mundial da Saúde (OMS): icd.who.int
- Levantamento interno RSData sobre a hierarquia completa da CID-11 em português (35.664 categorias, 28 capítulos), verificado diretamente no release oficial da OMS de 17/01/2026.
- WHO releases new International Classification of Diseases (ICD-11), comunicado oficial da OMS de 18/06/2018 (fonte do número de 55 mil códigos).
- ICD-11 Fact Sheet, OMS: icd.who.int/en/docs/icd11factsheet_en.pdf (fonte do número de 17 mil categorias diagnósticas).”
Leia também, no blog da RSData:
- Síndrome de Burnout
- Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT): guia completo e atualizado para 2025
- Riscos Psicossociais no Trabalho – O que Muda com a NR 1
FONTE: Baixe NOTA TÉCNICA Nº 91/2024-CGIAE/DAENT/SVSA/MS


