Lúcia Sebben, no artigo “Afastamentos por Burnout aumentam 823% entre 2021 e 2025 e muitos ainda resistem à NR-01”, alerta para uma virada urgente na gestão de saúde mental no trabalho.
Entre 2021 e 2025, os afastamentos por burnout passaram de 823 para 7.595 benefícios, crescimento de 823%. Além disso, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais em 2025.
Com a NR-01 avançando sobre a gestão dos riscos psicossociais, o debate não é mais se o trabalho impacta a saúde mental, mas como as empresas vão agir antes do adoecimento.
Afastamentos por Burnout aumentam 823% entre 2021 e 2025 e muitos ainda resistem à NR01
Por: Lúcia Sebben
O debate não é mais sobre a existência dos riscos psicossociais, mas sobre a maturidade e disposição que organizações e sociedade terão para enfrentá-los.
O burnout ou a síndrome do esgotamento tornou-se um dos maiores vetores de afastamento e improdutividade nas organizações Brasileiras, segundo dados da Previdência Social. O crescimento registrado entre 2021 e 2025 é alarmante e sinaliza falhas estruturais nos modelos de gestão ainda predominantes no país.
Ambientes tóxicos e falta de reconhecimento figuram entre os fatores associados por especialistas. No entanto, os destaques seguem para
• Sobrecarga de Trabalho: Jornadas prolongadas e acúmulo de funções sem contrapartida adequada esgotam os colaboradores progressivamente. • Metas Exageradas: Objetivos abusivos e uma cultura de alta performance, sem suporte emocional, criam ambientes cronicamente estressantes. • Hiperconectividade: A dissolução das fronteiras entre trabalho e vida pessoal impede a recuperação necessária, agravando o esgotamento.
O Brasil registrou mais de meio milhão (aumento de 194%) de benefícios previdenciários concedidos por transtornos mentais e comportamentais, consolidando a saúde mental como um dos principais desafios corporativos do país. Transtornos de ansiedade, adaptativos e episódios depressivos despontam entre os diagnósticos mais frequentes.
- Leia mais sobre esse assunto: Brasil bate recorde de afastamentos por saúde mental em 2025: mais de 2 mil profissões entram na lista
A tendência para 2026 aponta para a continuidade do crescimento, o que torna imperativa a implementação de programas estruturados de gestão de saúde mental nas organizações — com métricas claras, governança definida e integração entre RH, medicina do trabalho e liderança.
Entre 2021 e 2025, a saúde mental tornou-se uma prioridade estratégica para empresas em todo o mundo. No entanto, o Brasil apresentou uma das evoluções mais aceleradas do período, reforçando a necessidade de ações preventivas, gestão de riscos psicossociais e programas estruturados de apoio aos colaboradores.
Contudo, ainda é possível observar posicionamentos contrários a essa demanda. Alguns setores argumentam que a gestão dos fatores de riscos psicossociais não seria necessária e que sua implementação apenas aumentaria os custos, a burocracia e os passivos das organizações. Entre os argumentos mais frequentemente apresentados estão a preocupação com um possível aumento das ações trabalhistas, a alegação de que as empresas estariam produzindo evidências contra si próprias e a compreensão de que os transtornos mentais pertencem exclusivamente à esfera individual, não sendo possível comprovar de forma objetiva a relação entre o adoecimento e o trabalho.
Recentemente, um grupo de entidades empresariais buscou questionar e postergar a atualização da NR-01, sustentando argumentos relacionados ao excesso de subjetividade na avaliação dos riscos psicossociais, à insegurança jurídica e à suposta transferência excessiva de responsabilidade às organizações. Também foram levantadas preocupações quanto à falta de maturidade técnica do tema, à ausência de orientações metodológicas mais detalhadas para sua implementação, às possíveis divergências de interpretação entre os órgãos fiscalizadores e à complexidade de estabelecer os limites de responsabilidade entre fatores organizacionais e fatores individuais no processo de adoecimento.
Embora tais preocupações mereçam ser consideradas e debatidas de forma técnica, elas não invalidam o crescente conjunto de evidências científicas que demonstram a influência significativa das condições de trabalho sobre a saúde mental dos trabalhadores. O desafio, portanto, não está em negar a existência dos riscos psicossociais, mas em aprimorar continuamente os métodos de identificação, avaliação e gestão desses fatores, construindo um equilíbrio entre segurança jurídica, responsabilidade organizacional e proteção da saúde humana no trabalho.
Reconhecer a influência do trabalho sobre a saúde mental não significa atribuir toda a responsabilidade à organização. Significa assumir que ambientes, lideranças, processos e relações podem tanto produzir sofrimento quanto promover proteção, desenvolvimento e realização humana.
As discussões em torno da atualização da NR-01 revelam que o desafio da gestão dos riscos psicossociais ultrapassa questões técnicas, jurídicas ou metodológicas. No fundo, trata-se de uma mudança de paradigma sobre a forma como compreendemos a relação entre trabalho, produtividade e saúde humana.
Embora seja legítimo debater critérios, instrumentos e responsabilidades, não se pode ignorar o crescente conjunto de evidências científicas que demonstra a influência das condições de trabalho sobre a saúde mental dos trabalhadores. O sofrimento psíquico relacionado ao trabalho deixou de ser uma hipótese para se tornar uma realidade observada em organizações de todos os portes e segmentos.
Dessa forma, o desafio que se apresenta não é decidir se os fatores psicossociais devem ou não ser gerenciados, mas compreender como fazê-lo de maneira tecnicamente consistente, juridicamente segura e verdadeiramente eficaz. Afinal, organizações saudáveis não são aquelas que ignoram os problemas, mas aquelas que desenvolvem a capacidade de reconhecê-los, compreendê-los e transformá los em oportunidades de evolução para pessoas, equipes e negócios.
“A verdadeira discussão não deveria ser se o trabalho impacta a saúde mental das pessoas, pois isso já está amplamente demonstrado pela ciência. A discussão deveria ser o quanto estamos dispostos a transformar os ambientes de trabalho para que os resultados organizacionais deixem de ser alcançados às custas do sofrimento humano.”

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