Acidente de Trabalho Não Ocorre por Acaso: onde a prevenção falha

Pedro V. Pereira, no artigo “O acidente de trabalho não ocorre por acaso. Só ocorre onde a prevenção falha”, provoca uma reflexão direta sobre a naturalização dos acidentes e doenças ocupacionais.

O tema vai além de números e estatísticas: trata da perda de vidas, da dor das famílias e da fragilidade dos modelos tradicionais de Segurança e Saúde do Trabalho.

O grande desafio está em abandonar a visão reativa e simplista, que culpa o indivíduo, e avançar para uma abordagem sistêmica e preventiva.

Quando a prevenção falha, o acidente não é surpresa, é consequência.

Repensar a SST é essencial para negócios sustentáveis, pessoas protegidas e organizações mais resilientes.

O acidente de trabalho não ocorre por acaso. Só ocorre onde a prevenção falha

Por: Pedro Pereira

O acidente e a doença do trabalho (infortúnio laboral) representam perdas anuais, de cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) que a sociedade de trabalho . Para se ter uma ideia, o PIB do Brasil em 2024 foi de 11,8 Trilhões de Reais. Isso significa que os prejuízos gerados pelo infortúnio laboral foram de R$ 472 bilhões. O que mais incomoda ou deveria incomodar, é a “normose” ou a naturalização da desgraça. São milhões de registro de adoecimento, de mutilação e de mortes pelo exercício do trabalho. A dor, o sofrimento, as perdas inestimáveis e irreparáveis das famílias enlutadas não parecem sensibilizar o ambiente de negócios para uma radical mudança de atitude, onde o verdadeiro valor de sustentabilidade esteja alicerçado no maior ativo da Organização – a saúde e a vida de quem produz.

O trabalhador é agente e paciente de transformações, cabe a ele uma participação mais ativa e efetiva (o que está amplamente assegurado por Lei) no sentido de uma mudança comportamental compromissada com a desconstrução do atual modelo passivo e a reconstrução de um ambiente mais seguro, saudável, produtivo e sustentável, para todos.

Inteligência pela prática, aprendendo vivência com o território.

Segundo termos e definições Anexo I da NR-01 – aplicadas à todas as NRs, o Evento perigoso é a ocorrência ou acontecimento com o potencial de causar lesões ou agravos à saúde.

Por muito tempo, EVENTOS PERIGOSOS foram vistos de forma simplória com pobreza Franciscana, rasos e superficiais, aceitos como natural, inevitáveis ou simples falha humana. Afinal, o erro é humano, e se o “destino” quis assim é porque era a hora, frutos do acaso, do destino. Mas o verdadeiro erro nunca esteve na pessoa: esteve no método, no processo, no descaso — na forma simplória de ver e perceber o fator de risco (Perigo), negligenciado, invisibilizado. Se Você não enxerga o fator de risco (PERIGO), como vai avaliar e categorizar o risco. Quem não reconhece não mede. Quem não mede não gerencia. É nesse espaço de que a educação se torna transformação.

O MTE através da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) e FUNDACENTRO, junto com o Ministério Público do Trabalho demonstram que fortalecer profissionais de SST, empresários, estudantes e comunidade em geral não começa tão somente multas, interdições, programas, mapas de riscos ou indicadores fake. Começa com escuta, diálogo e valorização do saber local, inteligência pela prática. Cada trabalhador, profissional legitimado, e cada estudante carrega conhecimento sobre o lugar onde vive e trabalha. Ao apoiar projetos educativos de redução de riscos, o programa transforma escolas em espaços vivos de ciência cidadã: lugares onde se aprende, observa, registra e age.

Nas escolas e salas de treinamento, a mudança acontece de forma profunda. É na infância e adolescência que se criam vínculos, pertencimento e responsabilidade coletiva. Quando crianças e jovens aprendem a observar a organização do trabalho, métodos e práticas nos processos de trabalho de forma crítica, e os caminhos das Organizações, da escola e de casa percebem que o território fala — e que pode ser cuidado. O conhecimento deixa de ser distante e passa a fazer sentido no cotidiano. Acontece a transformação, deixa de ser o indivíduo e seu mecanismo individual de proteção e defesa, para gerar o saber coletivo como estratégia de proteção e defesa contra o infortúnio laboral.

Aos profissionais legitimados em Segurança e Saúde do Trabalho, revistar seus modelos, padrões e propósitos. Por décadas vivemos modelos reativos, que deixaram de atender as necessidades das partes envolvidas – Empregador/Trabalhador/Governo/Sociedade. Desconstruir é preciso. Reconstruir a Segurança e Saúde do Trabalho de modo proativo com visão sistêmica e integração sociotécnica responsável.

A SST requer uma mudança fundamental de paradigma, desconstruir modelos e paradigmas reativos para uma abordagem sistêmica e proativa. Afinal é sobre PRÉ VEN ÇÃO, inovar, fazer diferente, chegar antes e mudar o rumo dos acontecimentos.

Uma nova perspectiva, a SST não é apenas a ausência de acidentes e doenças ocupacionais, mais um valor intrínseco a sustentabilidade de negócios , um compromisso organizacional e eficiente. Valor que depende da compreensão profunda das forças que moldam o risco e a gestão dos processos gerenciais, sendo fundamental agir de forma proativa, antes que a falha se consolide em perdas humanas, materiais e ambientais.

A chamada metodologia de abordagem sociotécnica estruturada representa esta passagem, uma ponte. Ela as forças influenciadoras em dois grandes grupos:

– Primeiro, as variáveis endógenas (internas à Organização) e incluem o fator humano (competências, habilidades, estado neuro psicofisiológico, comportamento), o fator Organizacional (liderança, comunicação, processos) e o fator recursos tecnológicos (integridade de máquinas e processos).

– Segundo, variáveis exógenas que representam ameaças externas que atuam pressionando o sistema, tipo sociais e econômicas por produtividade, fatores climáticos naturais ou fortuitos, legislações rigorosas, doenças/pandemias e outras forças dinâmicas provocando flutuações de mercado.

O acidente ou doença do mercado, nesta visão, é o resultado do desequilíbrio no qual as pressões exógenas superam as defesas endógenas, tornando o erro humano, apenas um sintoma final de uma falha prévia e sistêmica de um modelo que precisa ser desconstruído e reconstruído em outra dimensão.

A gestão e o Gerenciamento de SST

Sobretudo, entendo a gestão de SST, como uma diretriz corporativa, ou seja, uma linha ou guia teórica a que todas as demais estarão vinculadas. Um compromisso, não apenas de investidores e administradores, mas de todas as partes envolvidas.

Para a ação, desdobramento desta diretriz, requer gerenciar essa complexidade, utilizando-se a dinâmica da SST, que monitora a oscilação do risco através de três níveis operacionais.

– Nível de normalidade: ocorre quando a gestão organizacional está adequada e a operação flui conforme o planejado, estabelecido.

– Nível de alerta: surge quando sinais fracos, quase acidentes, incidentes sem perdas indicam que a margem de segurança está reduzindo; é o momento crítico para a intervenção pró ativa. Isso precisa ser medido e monitorado.

– Nível de acidente: representa a ruptura total das defesas. Vulnerabilidade configurada, explícita. A gestão dinâmica exige que a Organização tenha sensibilidade e instrumentos gerenciais adequados para detectar precocemente (indicadores proativos) a transição da normalidade para o alerta, agindo nas variáveis internas para evitar o colapso.

Visão sistêmica

A eficácia (resultado pretendido) desse modelo proposto, depende de uma visão sistêmica da SST que integra a prevenção como um valor de sustentabilidade do ambiente de negócio, disseminada e compreendida em todas as áreas da Organização.

A SST deve estar conectada à toda a cadeia produtiva, fornecedores, processos, logística para equilibrar prazos e um bom nível padrão de segurança e saúde à todos os envolvidos; ao RH para desenvolver o capital humano; ao financeiro para garantir investimentos em tecnologias resilientes; e à manutenção para assegurar confiabilidade técnica.

Quando a Segurança e Saúde do Trabalho é percebida como um valor transversal, ela deixa de ser vista como um custo e passa a ser, de fato, uma estratégia de competitividade, de sustentabilidade e aprimoramento organizacional.

A SST num moderno sistema de gestão deve ser proativa. Apresentar uma proposta validada para a preservação da saúde, da integridade física e da vida de quem produz. A reputação positiva preserva o patrimônio. Será baseada em conceitos

teóricos e análise de estudos de casos de acidentes ampliados. No seu próprio histórico de desenvolvimento consolidando uma cultura prevencionista. Ao equilibrar as variáveis sociotécnicas, monitorar dinamicamente os níveis de risco e integrar a SST sistematicamente em toda a estrutura e interesses organizacionais, nasce a inovação, o diferencial de organizações que migram a postura de apenas “apagar incêndios”, para um formato de gestão resiliente, capaz de pré ver, de se antecipar a crises e de transformar a aprendizagem prática em cultura de SST consolidando sua reputação de sucesso!

Conteúdo Relacionado

Os artigos reproduzidos neste blog refletem única e exclusivamente a opinião e análise de seus autores. Não se trata de conteúdo produzido pela RSData, não representando, desta forma, a opinião legal da empresa.

Categoria

Últimas Postagens

Siga a RSData

Inscreva-se em nossa Newsletter:

Ao cadastrar seu e-mail, você autoriza o uso dos seus dados para contato, atendimento e envio de informações relacionadas à sua solicitação, conforme a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Seus dados não serão compartilhados indevidamente.

Acessar o conteúdo