A PRIMEIRA SEMANA DE TRABALHO DE UM TÉCNICO DE SEGURANÇA DO TRABALHO RECÉM-FORMADO?

Neste artigo gostaríamos de abordar alguns pontos fundamentais na primeira semana de trabalho de um Técnico de Segurança do Trabalho recém-formado. Estas considerações serão baseadas na experiência empírica do autor e observação dos mais de 300 profissionais técnicos e engenheiros que tive a oportunidade de trabalhar direta ou indiretamente nestes 18 anos de profissão.

Infelizmente muitos profissionais vão para o primeiro emprego sem conhecer a parte operacional de uma organização. Muitos deles jamais tiveram outro tipo ocupação além de estudante. Sendo assim o estágio é imprescindível para a transformação do aluno em técnico. Sem o estágio o discente não desenvolve habilidades e competências necessárias a sua prática profissional.

Antes de definirmos os primeiros passos do TST em sua primeira semana, gostaria de ressaltar que o maior desafio no primeiro emprego não é desenvolver sua competência técnica ou aplicar seus conhecimentos adquiridos no curso. Seus maiores desafios são gerenciar seu tempo, cumprir prazos, trabalhar em equipe, negociar com a produção, administrar orçamentos justos para o setor e lidar com as negativas da diretoria da empresa.

A primeira impressão é a que fica. Apesar de não termos certeza da veracidade deste ditado popular, levamos o mesmo a “ferro e fogo”, e nos cobramos causar uma boa impressão nos primeiros dias.

Mais uma boa impressão na primeira semana não está associada apenas ao seu conhecimento técnico. Outros fatores aplicados a qualquer outra oportunidade são cruciais:

  • Faltar ou atrasar. Tente chegar com 15 minutos de antecedência;
  • Relacionar-se com seus colegas de trabalho, evite ficar deslocado, tome cuidado com a timidez;
  • Evitar excessos, principalmente de informalidade e simpatia;
  • Demonstrar iniciativa e disponibilidade, não fique esperando trabalho;
  • Trabalhar com concentração, definido bem a hora de conversar e a hora de silenciar.
  • Decorar informações básicas, por exemplo, a localização da sua mesa de trabalho e setor, banheiros, a cozinha, a sala do chefe, e os outros locais relevantes;
  • Sorria, seja cortes e educado. Um simples bom dia, por favor, e obrigado tem um incrível poder e pode ser sua chave mestra a todos os caminhos.

Após as orientações gerais, ainda gostaria de tratar dois aspectos essenciais aos profissionais de segurança e saúde, antes de irmos para as “vias de fato”. Tudo bem?

Nossa profissão é árdua, mais gratificante. Por diversas vezes você terá que lidar com a frustração de um projeto que não foi para frente, pela falta de importância que dão ao seu trabalho ou pela despreocupação da gerência da empresa com as questões de segurança e saúde. Infelizmente precisamos lhe dar que estas questões todos os dias.

Aos neófitos de nossa profissão deixo uma dica seja positivo.

Não por ser seu primeiro emprego, mais por ser necessário para toda sua vida profissional. Por mais exaustivo e repetitivo entenda que você precisa acreditar que vai dar certo. Se ora precisamos convencer o patrão e ora precisamos convencer o trabalhador, como conseguir, quando não acreditamos em nós mesmos?

Infelizmente vejo muito amigos de profissão se preocupando mais com as derrotas que com as vitórias, com as lamúrias que com as alegrias, com o não posso fazer, do que com aquilo que pode ser feito. Seja pragmático, trabalhe com dados de realidade e aquilo que a empresa lhe oferece (por menor que seja), não fique pensando no que poderia ser feito, faça o melhor com o que existe. E se este melhor não lhe desafia, não lhe instiga e não faz com que você trabalhe motivado, procure outro emprego.

Um equívoco que cometi ao iniciar da minha carreira foi não registrar minhas realizações e resultados. Você desenvolve programas, documentos e procedimentos, implementa processos, escreve relatórios, realiza inspeções e ministra treinamentos para alcançar uma determinado objetivo, correto?

Você conseguiu os resultados esperados? O seu trabalho contribuiu significativamente para a redução da taxa de frequência ou de gravidade? Você conseguiu aumentar a quantidade de homem-horas de treinamento? O aumento dos treinamentos foi efetivo na redução de acidentes?

As informações de suas realizações e resultados são fundamentais para agregarem valor ao seu currículo e demonstrarem consistência e visão sistêmica da gestão de segurança e saúde em uma nova entrevista.

Espero não estar me alongando demais, mais entendo de suma importância tudo explicito até o momento.

Parabéns hoje é seu primeiro dia, vamos começar.

Entenda em regras gerais como empresa funciona, verifique se existe uma política de segurança do trabalho ou outras mais abrangentes como a de SMS ou de SGI. Procure entender em linhas gerais seus valores e a forma como a organização lida com os funcionários e clientes.

A partir daí seu caminho pode ter três vertentes:

  • Quando a empresa tem um SESMT implantado, sendo você parte de uma equipe. Neste caso você terá outros colegas de profissão e uma supervisão no setor. Você precisa conversar com seu chefe direto para entender como funcionará a divisão de tarefas e quais serão suas responsabilidades dentro da equipe. Esta opção é boa para o recém-formado quando, os outros TSTs da equipe são experientes, comprometidos com o trabalho e dispostos a partilhar seus conhecimentos.
  • Quando a empresa tem um SESMT implantado, sendo você único membro. Neste caso sua chefia vai estar vinculada a outro setor da empresa, normalmente RH ou diretamente a diretoria da empresa. Você receberá as orientações de um funcionário que não é da área e que recebeu as informações e orientações de um TST que já saiu da empresa. Não cabe a você avaliar o trabalho ou desempenho do colega que não pertence mais ao quadro de funcionários, sue meta e levantar a maior quantidade de informações possível para fazer seu diagnóstico e traçar seu plano de trabalho;
  • Quando a empresa não tem SESMT implantado e você é o primeiro. Neste caso sua chefia pode ser semelhante ao item anterior, entretanto como não há histórico a ser passado é muito provável que você terá que desenvolver tudo do zero e sua supervisão direta vai lhe prestar apenas as boas vindas.

Independente da situação que você estiver possuir SESMT não garante a implantação de segurança e saúde. É preciso que o SESMT tenha liberdade de atuação. Para isso a liderança da empresa precisa “vestir a camisa” da prevenção e colaborar em todos os aspectos com a segurança e saúde dos trabalhadores. Sendo assim sugiro que identifique as verdadeiras intenções na sua contratação.

O objetivo da empresa é ter um profissional atuante, compromissado e que de resultados significativos na gestão de segurança e saúde do trabalhador ou sua posição é apenas uma imposição legal e a empresa apenas quer um registro?

Caso identifique de imediato que está na segunda opção avalie se pretende trabalhar nesta empresa. O envolvimento maior ou menor da empresa com a sua área não aumenta, nem diminui suas responsabilidades.

Após identificar em qual grupo você se encaixa, precisa ter algumas premissas que serão fundamentais para sua atuação:

  • No caso do último grupo, se você por acaso teve a oportunidade de passar por um estágio, precisa “cair à ficha” que deverá resolver tudo por conta própria. Precisa fazer suas atividades de forma independente, definir uma rotina de atividades, sendo estas diárias, semanais, mensais, semestrais e anuais, definido prioridades, metas, objetivos e prazos a serem cumpridos;
  • O fato de você ser o “novato”, não desqualifica sua competência técnica. Sua opinião deve ser levada em consideração, lembre-se que para ser contrato suas habilidades e qualificações já foram avaliadas e aprovadas por um profissional da empresa. Sendo assim sugira novos métodos e/ou processos, identifique problemas, soluções e jamais tenha receio de compartilhar suas ideias em reuniões;
  • Esse é o dia para tirar suas dúvidas. Anote tudo que achar necessário, e preste atenção, a tudo que te disserem. Se não entender, questione até ter certeza que não restam mais dúvidas. Caso se enquadre no primeiro grupo, converse diariamente e troque informações e experiências com seus colegas de setor. Fazendo parte dos outros dois grupos tenha contato com outros profissionais da área;
  • Além disso, participe de Fóruns, Sites, Blogs, Feiras, Eventos em geral que seja sobre Segurança do Trabalho. É fundamental estar atualizado e vigilante as mudanças de legislação e ter uma boa rede de relacionamentos (networking) ao longo de toda a sua carreira. Com o tempo é importante que esteja sempre bem embasado, pois poderão surgir perguntas que necessitam de respostas imediatas;
  • Busque sempre um feedback. Mais esteja “aberto” a um comentário positivo ou negativo;
  • Use e-mail como ferramenta de trabalho e não apoie suas ações e suas atividades, acreditando que um correio eletrônico trará a solução do problema. Corra atrás, negocie pessoalmente, argumente, participe ativamente da solução, demonstre que seu interesse é resolver o problema e não passá-lo adiante. É fundamental que as respostas sejam em tempo hábil de acordo com a prioridade e necessidade, sempre com atenção a gramática e ortografia. Caso suas atividades requisitem pouco tempo no escritório deixe claro a todos que em caso de urgência é necessário o contato telefônico, sugiro até deixar uma mensagem programada com esta informação;
  • Não aponte erros e sim oportunidades de melhoria, elogie em público, mais se precisar chamar a atenção de um trabalhador faça isso no reservado. Utilize o bom senso e delete a arrogância do seu vocabulário, ninguém gosta de ser criticado o tempo todo. Cuidado na colocação das palavras e deixe claro que você precisa fazer o seu trabalho. De preferência por usar a primeira pessoa do plural, se inserindo sempre como problema e solução, por exemplo “O que nós podemos fazer para que isso não ocorra novamente? Como nós podemos adequar esta situação inadequada?”
  • Você é um profissional técnico. Você não acha, não chuta e nem supõe. Você avalia, embasa e sugere mediante uma legislação aplicável ou boa prática;
  • Guarde cópia de todos os relatórios, e-mails e atas de reunião que possam ser necessários em situações de acidente de trabalho ou causas trabalhistas;
  • Não há como mudar o mundo de uma só vez. Se traçarmos uma paralelo histórico da evolução da segurança do trabalho em nosso país podemos identificar uma evolução lenta e gradual. Por que na empresa que trabalhamos há de ser diferente. Seja paciente, persistente, perseverante e positivo.

Paralelamente as estas premissas você precisa ir dando seus primeiros passos e neste caso vamos sugerir aqueles que se aplicam os grupos 02 e 03, haja vista que no primeiro todas as atribuições serão definidas pelo supervisor do setor em função da divisão das atividades da equipe.

Conheça a empresa, circule por todos os setores da empresa, se apresentando as lideranças e disponibilizando para ajudá-los no que for preciso. Sugiro que seja agendo um Diálogo Diário de Segurança (DDS) geral onde possa se apresentar a todos ou em função do tamanho e logístico da empresa, define uma escala para que este seja realizado em cada departamento.

Entenda como funciona o “modus operandis” da empresa, como ocorre a entrada (input), como se realiza a transformação de um determinado produto ou serviço, agregando-lhe valor e de que maneira se dá a saída (output) para um cliente externo ou interno. Afinal é importante entendermos os processos produtivos para poder identificar os possíveis riscos existentes em cada fase de produção ou atividade de trabalho. É através do entendimento dos processos de trabalhos que o profissional de segurança do trabalho poder se antecipar, reconhecer e determinar quais os processos deverão ser monitorados, a fim de reduzir a probabilidade ou eliminar a causas básicas que normalmente tendem a propiciar um acidente de trabalho.

Quando falamos em conhecer o processo produtivo estamos falando em identificar as matérias primas, os equipamentos e máquinas necessários, os cargos e atividades desenvolvidas, os principais perigos e riscos, as formas de controles estabelecidas e os procedimentos e padrões de produção existentes (quando existentes). Além disso, sugiro identificar junto com esta etapa as queixas mais comuns e problemas mais frequentes, os desvios mais comuns, os últimos acidentes ocorridos, autuações e/ou notificações do Ministério do Trabalho e Emprego, ocorrência de causas trabalhistas ligadas à segurança e saúde do trabalho, índice de absenteísmo por doença ocupacional ou acidente (típico ou de trajeto), existência de atividades insalubres ou perigosas e indicadores biológicos a normais.

Para este que este levantamento seja realizado de maneira mais ampla além do entendimento dos processos da empresa, ao circular pela empresa anote e registre informações sobre as instalações elétricas, a instalação de máquinas e equipamentos e lay-out, estado geral e conformidade das áreas de vivência, disponibilidade dos equipamentos e dispositivos de combate a incêndio, condições gerais do estado da edificação, acessos e rotas de fuga, transito de veículos, armazenamento de materiais (inclusive produtos químicos), possíveis desvios (não uso de EPI, improviso, uso de acesso inadequado, etc.) e etc. Por fim e não menos importante você vai solicitar ao seu superior imediato alguns documentos e registros. Vale notabilizar que documento e registro não é a mesma coisa. Documento é informação, planejamento, diretrizes que nortearão a empresa. São exemplos de documentos: procedimento, instrução de trabalho, política da companhia, o código de ética da sua empresa, etc. Já os registros são anotações de fatos que já ocorreram, sendo uma evidência de uma prática.

Certamente você não conseguirá avaliar tudo em uma semana, terá que fazer estas atividades em paralelo e pouco a pouco.

Organize um rascunho de todas as pendências em três níveis:

  • Existente (verde): Esta prática/documento/registro existe e é aplicado de maneira adequada, atendendo os requisitos legais vigentes;
  • Existente e não conforme (amarelo): Apesar de existir prática/documento/registro este não atende os requisitos legais vigentes, sendo necessária adequação.
  • Inexistente (vermelho): Não existe prática/documento/registro sendo necessária elaboração, implantação e desenvolvimento.

Baseado nesta estruturação você pode identificar para seu superior imediato de maneira superficial o grau de atendimento legal, identificando o que precisa ser corrigido e o que precisa ser implantado.

A partir deste rascunho defina as prioridades e elabore um plano de ação, definindo os responsáveis e as datas de fechamento. É importante destacar que as prioridades serão em função da natureza/gravidade e concentração/iminência do risco.

Sugiro iniciar pelos ricos graves e iminentes, os riscos que podem causar morte e incapacidade permanente (amputação de membro, cegueira de ambos os olhos, etc.) depois passe para os riscos que causem incapacidade temporária (quebra de braço ou perna, torção, corpo estranho no olho, lesões múltiplas, etc.) e doenças agudas (intoxicação, dermatite, etc.), após avalie os riscos de acidente sem perda de tempo (escoriações, cortes, luxações, etc.) e doenças crônicas (surdez, silicose, etc.). Por fim sua prioridade é atender a legislação trabalhista e previdenciária garantindo que além de não haver acidentes e doenças ocupacionais a empresa não terá sanções junto aos órgãos competentes.

Para finalizar sugiro que para que desenvolvimento deste plano de ação seja eficaz é necessário que o tratamento das ações do plano em reuniões mensais, sendo esta periodicidade reduzida a medidas que as ações sejam finalizadas, a participação periódica nas reuniões de Segurança e Saúde de representantes da Diretoria ou Superintendência e vistorias de inspeção quinzenais, avaliando além do atendimento do plano de ação, a identificação de riscos e desvios nos ambientes de trabalho. (estas vistorias podem ser realizadas pela CIPA ou os responsáveis dos setores).


Autor: Victor Costa
Técnico de segurança do trabalho (2003);
Engenheiro Civil (2012);
Engenheiro de Segurança do trabalho (2013);
Personal &Professional Coaching (2016);
Líder Coach (2016);
Auditor Líder em SGI (2020);
Membro Efetivo da ABHO (nº 1342);
Membro da SEBES – RIO.

Os artigos reproduzidos neste blog refletem única e exclusivamente a opinião e análise de seus autores. Não se trata de conteúdo produzido pela RSData, não representando, desta forma, a opinião legal da empresa.

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